Guerra entre Croácia e União Soviética: O Acre não merece isso

3–5 minutos

Por Francisco O. D. Veloso*

Esta semana fui surpreendido por um vídeo que circula em redes (pouco) sociais em que uma pré-candidata ao Senado usa, como exemplo do momento de crise em que vivemos, a guerra que ocorre, hoje, entre a “Croácia e a União Soviética”.

O vídeo que assisti era uma piada, ou ‘zoava’, com algo dito pela pré-candidata em uma entrevista. Temos duas coisas: primeiro a entrevista, que deu um pouco ‘errado’, digamos. Segundo, a partir da entrevista surgiram vários vídeos, inclusive este que assisti e memes, que ironizam, que tratam com humor a ‘gafe’ da pré-candidata.

O humor serve para divertir, para nos fazer rir, o que é muito saudável, mas não é assim tão inocente.

O jornal inglês The Guardian publicou, esta semana, uma matéria sobre o tema e utilizou dois trabalhos de pesquisa para ilustrar como a comédia afeta a percepção da vida em sociedade.

O primeiro é o livro That’s not funny: How the right makes comedy work for them [Isso não é engraçado: Como a direita utiliza a comédia em seu favor], escrito pelos professores/pesquisadores Matt Sienkiewicz e Nick Marx, que será publicado em maio nos Estados Unidos.

Os autores concluíram, depois de meses pesquisando comédias ‘de direita’, que não se pode ignorar sua influência no processo de naturalização de ideias que talvez tenhamos que conversar mais a respeito.

Uma outra fonte da matéria publicada no The Guardian é um documentário produzido para a BBC por Louis Theroux, que entrevistou vários comediantes. Um deles, por exemplo, tem divulgado, em suas plataformas, piadas que negam o Holocausto e acredita que mulheres não deveriam votar – quando criticado, alega que é apenas comédia.

O humor permite que se diga coisas que, de outro modo, seriam ofensivas. Fazer piada sobre doenças (como foi o caso do ator/comediante Chris Rock no Oscar 2022), por exemplo, impossibilita a crítica, porque só um ‘doido’ fica com raiva de uma piada. Por isso, somente Will Smith foi criticado e sofreu sanções.

Pensando no contexto brasileiro, penso que temos outro aspecto a considerar. O uso da piada para ‘zoar’ políticos e/ou suas ações. Lembro-me que, na época do processo de impeachment da ex-Presidenta Dilma Rousseff, recebi um vídeo que mostrava uma rodinha de samba, onde um grupo cantava alegremente sobre o show de horrores que era aquele processo que dividiu famílias, amigos, e jogou o país em uma crise da qual não conseguimos ver, ainda, uma saída – a inflação está aí.

Hoje, sabemos que as pedaladas fiscais eram uma farsa, um golpe contra o país e contra uma presidenta democraticamente eleita.

O humor dissolve a possibilidade de que nos revoltemos – um eleitor de Bolsonaro é, antes de qualquer coisa, um revoltado com ‘tudo o que está aí’, porque ele foi assim ensinado em grupos de mensagem instantânea. Em vários aspectos, a revolta está correta, o problema é quem se apresenta como solução.

Agora, voltemos à pré-candidata.

A Croácia sequer faz fronteira com a Ucrânia ou com a Rússia, os dois países atualmente em guerra. Seria até perdoável não saber disso, mas trazer para o exemplo, a União Soviética, demonstra um (total) despreparo intelectual, desconhecimento de História e do que acontece no mundo, hoje, inaceitável para alguém que postula uma vaga no Senado Federal.

A União Soviética entrou em colapso no início da década de 1990 (mais especificamente em 1991), depois da queda do muro de Berlin (em 1989). Mas não só por causa disso. Na década de 1980, a então União Soviética foi empurrada, pelos Estados Unidos para um conflito armado no Afeganistão – segundo generais americanos, pretendiam dar à União Soviética o seu “Vietnã”.

O conflito armado entre a União Soviética e o Afeganistão (treinado, financiado e armado pelos EUA – ver Eric Hobsbawm e o livro “Uma breve história do Século XX) levou o bloco soviético à falência econômica. A queda do muro de Berlin foi o empurrão final.

Não se pode tratar o despreparo construído historicamente, sabemos como, de pessoas que querem tomar decisões que afetam 210 milhões de brasileiros com humor. Cada vídeo, cada meme que se produz acerca do assunto dá visibilidade a uma possível candidatura que não deveria sequer existir. Isso não é engraçado. É uma tragédia anunciada.

*Francisco O. D. Veloso é professor no Centro de Educação, Letras e Artes (CELA-UFAC). Possui Doutorado em Linguística Aplicada/Inglês pela UFSC. Foi professor na Universidade Politécnica de Hong Kong (Hong Kong SAR), Professor Visitante na Universidade de Modena e Reggio Emília (Modena, Itália) e professor na Universidade de Bologna (Bologna, Itália).