Por Francisco O. D. Veloso*
Estamos a menos de 100 dias do segundo mandato do Governador Gladson Cameli e no meio de uma tragédia natural. Fazia muito tempo que não via tanta água nesta cidade. Ela trouxe à tona a miséria produzida pela ausência do poder público.
Juntei-me, sábado pela manhã, a um processo de coleta de dados para uma pesquisa de mestrado que está sendo desenvolvida na UFAC.
A coleta de dados se dava ao longo do igarapé São Francisco. Era necessário tirar fotos, fazer marcações, etc. Enquanto o pesquisador fazia o seu trabalho, comecei a olhar em volta e não pude deixar de observar esta tragédia também como pesquisador.
A cidade está alagada. Não é simplesmente porque está chovendo nas cabeceiras. Chover, sempre choveu desde que o mundo é mundo.
O caos e a pobreza que vi são resultados diretos das ações e da ausência de ações do Governo do Estado e da Prefeitura de Rio Branco.
A ocupação urbana desordenada.
As alagações são resultado da falta de estrutura básica. Sistemas de drenagem fluvial e pluvial. Saneamento.
Salve-se quem puder.
A ironia disso tudo é que também estamos em meio a um gigantesco escândalo de corrupção.
Um Governo Estadual paralisado.
Rio Branco, com uma prefeitura incapaz de sequer lidar com as necessidades mais básicas, como buracos na cidade. Uma Capital!!!
Enquanto refletia sobre a inércia, incompetência, descaso dos eleitos ao longo do dia, era motivado por uma imagem que ficou na memória. Poderia colocar uma foto – existe uma, mas penso que escrever faz mais sentido.
Na baixa da colina, ali na Cohab do Bosque, vi duas mulheres sendo retiradas por um rapaz. As duas estavam dentro de uma pequena piscina de fibra, azul. Acho que tinha, nos braços, uma criança. Não era uma cena para se olhar por muito tempo. Seria uma violência invadir o sofrimento do outro e tratá-lo de forma que pudesse parecer um espetáculo. Não é.
A outra ironia é que, há quase exatos seis meses, tivemos uma eleição. Sobrava candidatos declarando seu amor pelo Estado, pelos carentes, preocupados com o próximo, com o futuro.
O futuro chegou e não é bom.
Ao longo de toda a manhã, o que vi foi a ausência, inoperância, do poder público.
Primeiro, que não fez o seu serviço, antes – saneamento.
Segundo, desapareceu, no meio de uma alagação.
O Governador saiu, no meio da tarde, para passear de helicóptero e ver como estavam as coisas. Ação no mínimo perfunctória.
Só lamento profundamente pela vida difícil dessas pessoas, diante da minha impotência.
Procura-se um Distrito 12 – uma oposição robusta.
Panem é aqui.
* Francisco O. D. Veloso é professor/pesquisador no Centro de Educação, Letras e Artes (CELA-UFAC). Possui Doutorado em Linguística Aplicada/Inglês pela UFSC. Foi professor na Universidade Politécnica de Hong Kong (Hong Kong SAR), Professor Visitante na Universidade de Modena e Reggio Emília (Modena, Itália) e professor na Universidade de Bologna (Bologna, Itália). IG: fveloso.

