Autor do histórico editorial “Uma escolha muito difícil” na disputa entre Bolsonaro e Haddad, Estadão esbraveja por “dedazo” de Bolsonaro excluir Tarcísio. Vera Magalhães faz a egípcia sobre interesses neoliberais que une “elite”, mídia e o clã.
Em meio à tentativa atabalhoada de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para se justificar à Faria Lima sobre o elo com Daniel Vorcaro, com banqueiros fugindo de reuniões com o pré-candidato, a mídia liberal, porta-voz dos interesses financistas, começa a soltar a mão do filho “01” de Jair Bolsonaro (PL), ungido como única alternativa para resgatar as políticas neoliberais do “Estado mínimo”, com a redução de projetos sociais, e das privatizações de empresas públicas, como a Petrobrás e Banco do Brasil.
Em editorial nesta quinta-feira (21), intitulado “Isto é Flávio Bolsonaro”, o Estadão relembra o caso de corrupção das rachadinhas, que desnudou a relação do “01” com a milícia carioca, ao dizer que “ninguém pode se dizer surpreendido com as mentiras em série do senador, cuja folha corrida inclui rachadinha e ligação com milicianos”.
“O caso Master não torna Flávio pior do que ele já era”, emenda o jornalão, historicamente defensor dos interesses da burguesia paulista.
No texto, o jornal comandado pela família Mesquita, que recebeu Jair Bolsonaro no início do mandato, fala da “ficha corrida” do senador e diz que o escândalo Master “não muda uma vírgula da biografia de Flávio, na qual já figuram com destaque suas relações com milicianos, a prática de rachadinha em seu gabinete e estranhos negócios imobiliários em dinheiro vivo”.
Ao bradar que a “mendacidade” – o ato de mentir de forma contumaz – “é a própria natureza do clã Bolsonaro”, o jornal que na eleição de 2018 soltou o histórico editorial “Uma escolha muito difícil”, sobre a disputa com Fernando Haddad, parte para cima do filme Dark Horse.
“O filme sobre Bolsonaro, a julgar pelo trailer divulgado por Flávio, é em si mesmo um retrato fiel dessa doença congênita: inventa um Bolsonaro que só existe nos delírios da família. Como vivemos tempos estranhos, em que mentirosos patológicos ganham destaque no degradante mercado da atenção em que se transformou a política, chega a ser engraçado que alguém se queixe por ter sido enganado por Flávio Bolsonaro”, dispara.
O Estadão ainda mostra todo seu ressentimento pelo “dedazo” de Bolsonaro ao ungir o filho como candidato do sistema, expelindo a tentativa da terceira via – consórcio que une mídia liberal, Faria Lima e Centrão – em emplacar Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) como anti-Lula.
“Determinada pelo dedazo’ de Jair Bolsonaro, a candidatura de Flávio sabotou a construção de uma chapa de oposição democrática à reeleição de Lula. E é improvável que os Bolsonaros recuem, já que seu objetivo é impedir que a direita se organize em torno de nomes de fora da família. A lealdade, como ocorre na máfia, é a laços de sangue, não a valores morais e princípios republicanos ou mesmo a um projeto de país”, diz ainda o texto.
Por fim, como não deveria deixar de ser, o Estadão aproveita para atacar a “máfia” Bolsonaro pela “proeza de devolver o poder a Lula, malgrado a extensa folha corrida do petista”.
“Só por isso mereceriam do País o mais absoluto desprezo”, conclui.
Vera Magalhães
No jornal O Globo, a colunista Vera Magalhães, aliada histórica do tucanato paulista, faz a egípcia ao indagar “até onde a elite vai com os Bolsonaro?”.
“Condescendência com acusações e instabilidades ligadas ao clã não se explica nem por dados econômicos e fiscais do governo de Jair”, diz a jornalista.
Ao levantar a questão do elo entre a “elite” e Jair Bolsonaro, Vera Magalhães, no entanto, faz a egípcia sobre os reais interesses econômicos da burguesia, que aceitou a candidatura do já conhecido defensor da Ditadura avalizada pelo “posto Ipiranga” Paulo Guedes, parceiro da Globo na think tank neoliberal Instituto Millenium.
“As pesquisas e as novas revelações (que não param de aparecer, a despeito das velas acesas na Faria Lima) dirão se Flávio se segura. Mas a disposição a passar pano com desinfetante para tudo o que tenha o sobrenome Bolsonaro é um traço distópico dos nossos tempos que precisará ser explicado nos livros de História, com as consequências dela decorrentes”, dispara, passando pito no “mercado” em nome da Globo.
Vera chega a lembrar da eleição de 2018 e “do histórico antiliberal do “capitão” recém-associado a Paulo Guedes” antes de listar uma série de atitudes criminosas de Bolsonaro no poder.
“Agora, diante de um áudio reconhecido pelo próprio pré-candidato como autêntico, pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro já enrolado para um filme sobre o pai, com recursos geridos por um fundo sem nenhuma transparência, existe uma torcida silenciosa para que a tempestade passe, e a motociata siga”, vocifera.
“O resultado econômico e fiscal sob Bolsonaro e Guedes não explica tal devoção imune a fatos. O antigo teto de gastos foi seguidamente excedido, houve a pedalada com precatórios e toda sorte de medida eleitoreira, inclusive elevando despesas assistenciais — um dos pecados sempre apontado nas gestões petistas”, emenda, sem esquecer de atacar os projetos sociais dos governos Lula e Dilma.
Sem citar os interesses financeiros que une a “elite” ao clã Bolsonaro, a colunista lamenta dizendo que “é difícil compreender, apenas à luz da ideologia, tal complacência” e tenta equiparar com “escândalos envolvendo políticos do PT ou mesmo do PSDB”.
“Basta ver a descida ao inferno de Aécio Neves por muito menos que esse acervo do ‘azarão’ e sua prole”, diz a colunista com o exemplo do tucano mineiro, que deu início ao golpe contra a Dilma Rousseff após a derrota eleitoral em 2014 e sempre foi cortejado e protegido pela “elite” e pela mídia liberal.

