O debate público brasileiro atravessa uma de suas fases mais conturbadas, marcada pelo estreitamento da reflexão racional e pela ascensão de atalhos morais que visam apenas ao escândalo e ao ganho político imediato. Quando a cena eleitoral se reduz ao ataque pessoal fundado em aspectos da vida privada — como orientação sexual ou religiosidade —, a própria democracia sofre um abalo em suas fundações. Contudo, há um segundo ato igualmente perigoso nessa dinâmica: o aproveitamento tático e calculista do papel de vítima.
O duplo repúdio: da agressão gratuita ao cálculo do vitimismo
Recentemente, assistiu-se a mais um episódio infeliz de pseudojornalismo no Acre, em que ataques sensacionalistas e desprovidos de ética buscaram desqualificar figuras públicas como a vice-governadora Mailza Assis e a ex-deputada Jéssica Sales, explorando de forma apequenada sua fé e sua orientação sexual. Trata-se de uma prática abominável que merece o mais veemente repúdio. O exercício da imprensa exige sobriedade, responsabilidade social e compromisso com a verdade, distanciando-se do espetáculo vulgar e inconsequente.
No entanto, a análise política rigorosa não pode parar na indignação superficial. Tão reprovável quanto a agressão original é a tentativa de superdimensionar o fato para transformar o ultraje em palanque. Quando campanhas enxergam no ataque de uma figura sem credibilidade uma oportunidade de ouro para potencializar candidaturas via comoção popular, instala-se o império do vitimismo estratégico.
“A liberdade de expressão é um pilar inegociável do Estado Democrático de Direito, mas jamais deve ser confundida com a licença para a agressão gratuita ou para a instrumentalização da dignidade alheia.”
A lição da história: quando a ofensa vira capital eleitoral
A história política local guarda paralelos instrutivos. Na disputa pela prefeitura de Rio Branco em 1997, muito antes do advento das redes sociais, a imprensa escrita presenciou episódios em que colunas opinativas colocaram em xeque a vida pessoal e a masculinidade de candidatos. Naquela ocasião, a articulação partidária soube converter o ataque em ativo eleitoral, alterando diretamente o rumo do pleito.
O cenário atual resvala na mesma lógica. A exposição pública da fé de Mailza Assis e da orientação sexual de Jéssica Sales — fatos que, diga-se de passagem, jamais foram segredos ou tabus externados pelas próprias candidatas — não pode servir de pretexto para a baixaria, mas tampouco para a fabricação de um teatro de vitimização. O eleitorado merece propostas, projetos e debate de ideias, e não a exploração sentimental de ofensas proferidas por atores marginais da comunicação.
Fé, identidade e os limites da liberdade de expressão
É preciso resgatar a clareza conceitual sobre as garantias constitucionais. O direito de manifestação do pensamento é amplo, mas carrega consigo o peso incontornável da responsabilidade jurídica e moral. Quem opta pelo excesso deve arcar com as consequências de suas palavras. A liberdade de expressão não é, e jamais será, um salvo-conduto para a calúnia ou a homofobia.
Por outro lado, o ecossistema político precisa expurgar a mercantilização da fé e o uso oportunista da religião. O ecossistema institucional e social do Acre, a exemplo do cenário nacional, assiste estarrecido à transformação de templos religiosos em comitês eleitorais e da crença individual em moeda de troca partidária.
“Quem faz dos altares palanques eleitorais apequena a fé; quem se aproveita da agressão para fabricar comoção apequena a política. A imprensa séria não pode ser conivente com nenhum dos lados dessa equação.”
Considerações finais
A maturidade de uma sociedade mede-se pela qualidade do seu debate público. Não se pode tolerar a vilania daqueles que usam microfones e canetas para agredir a honra de quem quer que seja, assim como não se deve fechar os olhos para a conveniência daqueles que transformam a agressão em combustível para suas ambições eleitorais. A verdadeira coragem jornalística e cidadã reside em não se omitir diante do malfeito, recusando-se categoricamente a embarcar tanto na baixaria do ataque quanto na farsa da exploração política.


