Um texto longo sobre muitas coisas, inclusive sobre ética, moral e política

5–7 minutos

Olá, bora porongar?

No período eleitoral, o que mais se fala é sobre a compra e venda de votos.

Tenho tristeza quando vejo pessoas humildes sendo utilizadas para balançar bandeiras nas esquinas das nossas cidades.

Neste período, ganham um dinheirinho para suprir as suas necessidades básicas.

Infelizmente, são descartáveis.

Com o fim do processo eleitoral, são esquecidas.

Como receberam, não podem cobrar coisa melhor dos eleitos.

Essa é uma parcela da sociedade, mas há uma maior que troca o voto por nada.

Por mixaria.

Vendo essa situação a cada pleito, em que o poder econômico cada vez mais dita os rumos dos processos eleitorais, fui rever leituras para compreender e explicar.

Lembro que, há alguns anos, li Norberto Bobbio.

Bobbio foi um filósofo político, historiador do pensamento político, escritor e senador vitalício italiano.

O cara era bom.

Sobre a venda de votos, ele entendia que o eleitor não deveria vender, pois a prática desvirtua a essência da democracia.

Eu concordo, mas o mundo real é bem diferente.

Tem turma que se acha no direito de comprar tudo e todos.

Até mesmo quem ousa criticar quem está no poder.

Na relação de compra e venda, há um detalhe: a questão ética e moral.

Aviso que não estou exposto numa vitrine.

Não estou, portanto, à venda.

Novamente fui aos livros.

Fui ao livro chamado Justiça: O que é fazer a coisa certa, de Michael J. Sandel.

Vou transcrever duas passagens do livro.

Ambas são sobre um trem desgovernado.

O que falarei está entre aspas:

“Suponha que você seja o motorneiro de um bonde desgovernado avançando sobre os trilhos a quase 100 quilômetros por hora.

Adiante, você vê cinco operários em pé nos trilhos, com as ferramentas nas mãos.

Você tenta parar, mas não consegue.

Os freios não funcionam.

Você se desespera porque sabe que, se atropelar esses cinco operários, todos eles morrerão.

De repente, você nota um desvio para a direita.

Há um operário naqueles trilhos também, mas apenas um.

Você percebe que pode desviar o bonde, matando esse único trabalhador e poupando os outros cinco.

O que você deveria fazer?

Muitas pessoas diriam:

‘Vire! Se é uma tragédia matar um inocente, é ainda pior matar cinco.’   

Sacrificar uma só vida a fim de salvar cinco certamente parece ser a coisa certa a fazer.   

Agora considere outra versão da história do bonde.   

Desta vez, você não é o motorneiro, e sim um espectador, de pé numa ponte acima dos trilhos.   

(Desta vez, não há desvio.)   

O bonde avança pelos trilhos, onde estão cinco operários.   

Mais uma vez, os freios não funcionam.   

O bonde está prestes a atropelar os operários.   

Você se sente impotente para evitar o desastre — até que nota, perto de você, na ponte, um homem corpulento.   

Você poderia empurrá-lo sobre os trilhos, no caminho do bonde que se aproxima.

Ele morreria, mas os cinco operários seriam poupados.

(Você pensa na hipótese de pular sobre os trilhos, mas se dá conta de que é muito leve para parar o bonde.)

Empurrar o homem pesado sobre os trilhos seria a coisa certa a fazer?

Muitas pessoas diriam:   

‘É claro que não. Seria terrivelmente errado empurrar o homem sobre os trilhos.’   

Empurrar alguém de uma ponte para uma morte certa realmente parece ser uma coisa terrível, mesmo que isso salvasse a vida de cinco inocentes.   

Entretanto, cria-se agora um quebra-cabeça moral:   

Por que o princípio que parece certo no primeiro caso — sacrificar uma vida para salvar cinco — parece errado no segundo?   

Na hipótese de, como sugere nossa reação ao primeiro caso, os números serem levados em conta — se é melhor salvar cinco vidas do que uma —, por que, então, não devemos aplicar esse mesmo princípio ao segundo caso e empurrar o homem gordo?   

Realmente, parece cruel empurrar um homem para a morte, mesmo por uma boa causa.

Mas é menos cruel matar um homem atropelando-o com um bonde?

Talvez a razão pela qual seja errado empurrar é que, fazendo isso, estaríamos usando o homem na ponte contra sua vontade.

Ele não escolheu estar envolvido, afinal.

Estava apenas ali, de pé.

O mesmo, no entanto, poderia ser dito sobre o homem que está trabalhando no desvio do trilho.

Ele também não escolheu se envolver.

Estava trabalhando, e não se oferecendo para sacrificar a vida num acidente com um bonde desgovernado.”

Talvez, explica Michael J. Sandel, “a diferença moral não resida no efeito sobre as vítimas — ambas terminariam mortas —, e sim na intenção da pessoa que toma a decisão”.

Fazer a coisa certa, ao contrário do que julgamos, nem sempre é fácil.

Votar e escolher representantes envolve dilemas morais.

O Acre é um bonde desgovernado.

E caminha para matar, de forma figurada, milhares de pessoas que estão dentro ou fora dos trilhos.

O texto e o vídeo ficaram longos.

Achei interessante fazê-lo para deixar dois registros.

O primeiro é falar sobre a importância do voto.

Lamentavelmente, essa importância tem sido desprezada a cada eleição.

Muitos vendem e vendem barato.

E depois tacham os políticos de corruptos.

É corrupto quem compra e quem vende.

O outro é sobre ética e valor moral.

Ao contrário de influenciadores digitais e certos jornalistas que fazem do seu trabalho uma vitrine para comercializar espaço, alerto que na minha vitrine só aparece o que quero, pois não estou à venda.

Posso estar equivocado, mas defendo que a ganância é uma falha moral que o Estado deveria desencorajar.

Nunca fui ganancioso.

Preciso de dinheiro, mas dinheiro nenhum serviria de travesseiro para eu dormir em paz.

Já que estou num papo cabeça, vou finalizar falando de filósofos.

Na República, de Platão, Sócrates compara os cidadãos comuns a um grupo de prisioneiros confinados numa caverna.

Tudo o que veem é o movimento das sombras na parede, um reflexo de objetos que não podem apreender.   

Apenas o filósofo, nesse relato, pode sair da caverna para a luz do dia, sob a qual vê as coisas como realmente são.   

Sócrates sugere que, tendo vislumbrado o sol, apenas o filósofo é capaz de governar os habitantes da caverna, se ele, de alguma forma, puder ser induzido a voltar para a escuridão onde vivem.   

Na opinião de Platão, para captar o sentido de justiça e da natureza de uma vida boa, precisamos nos posicionar acima dos preconceitos e das rotinas do dia a dia.   

Ele está certo, creio, mas apenas em parte.

Os clamores dos que ficaram na caverna devem ser levados em consideração.

Temos muitas vidas na caverna.

Os seus clamores não são levados em consideração.

É pena que não tenhamos filósofos no comando.

Nem pedagogos.

Fui.

Um forte abraço.

Um cheiro do Rosas.

Vida que segue.