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Abra o seu sigilo”: Lula chama Flávio Bolsonaro de miliciano no SBT, promete procuração ao TSE e deixa no ar quem vai pagar a conta das promessas

🔥Lula foi certeiro e confiante no SBT: rebateu entrevistadoras e chamou Flávio de miliciano🔥

Faltando poucos dias para o segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva trocou a defesa pela ofensiva. Na sabatina do SBT, o presidente usou as considerações finais, o espaço nobre que todo marqueteiro disputa a tapa, para cravar uma acusação pesada contra o adversário: chamou Flávio Bolsonaro de miliciano.

Não foi só isso. Lula repetiu o desafio lançado na véspera: ele e a família vão entregar uma procuração ao Tribunal Superior Eleitoral e à Suprema Corte para abrir os próprios sigilos bancário e telefônico. E cobrou que Flávio e os irmãos façam o mesmo.

Procurada pelo SBT, a campanha do PL não se manifestou. O silêncio também é resposta. Só não se sabe ainda de que tipo.

A bomba das considerações finais

A escolha do momento não foi acidental. Considerações finais não têm réplica, não têm pergunta de volta, não têm contraditório. Lula sabia disso e jogou a carga mais pesada justamente ali, onde ninguém podia interrompê-lo, a não ser a apresentadora avisando que o tempo tinha acabado.

“Vamos quebrar o sigilo bancário. Vamos quebrar o sigilo telefônico. Eu tô cansado de, nesse país, se falar em corrupção e, terminadas as eleições, nada ser apurado.”

Em seguida, o presidente mirou o caso Queiroz. Acusou Flávio de ter mentido repetidas vezes, 43, nas contas de Lula, ao negar proximidade com Fabrício Queiroz, e citou uma foto dos dois em um churrasco e outra no avião. O presidente fechou com a convocação:

“Eu e minha família estamos preparando uma procuração para entregar no Tribunal Superior Eleitoral e na Suprema Corte. Eu quero que você faça o mesmo com a sua família. Vamos deixar investigar para saber onde é que está a corrupção nesse país.”

Um registro necessário: o termo “miliciano” é uma acusação de Lula, feita sem a apresentação de provas durante a entrevista. É grave e, como tal, precisa ser tratada. Tanto quem acusa quanto quem se cala diante dela deve explicações ao eleitor.

Corrupção como campo de batalha

O Portal do Rosas já havia mostrado que a estratégia da reta final é transformar a corrupção no ringue principal da disputa. A campanha bolsonarista apostava no contraste entre um presidente de 80 anos e um candidato “tinindo”. Lula respondeu deslocando a briga do vigor físico para a ficha corrida.

Não é a primeira vez. Em setembro, como registrou o Portal, Lula já havia dito em podcast que Flávio “tem o rabo preso com o banco Master”. O roteiro é claro: colar no adversário a pecha de alguém com algo a esconder e usar a transparência como arma.

Mas uma procuração entregue a tribunal não é, por si só, investigação. Quem vai analisar esses dados? Com qual prazo? Sob qual procedimento? Sem essas respostas, o gesto corre o risco de ser apenas o que todo gesto de campanha costuma ser: um belo corte para as redes.

Desenrola 1, 2, 3… e a conta?

Quando a entrevistadora Simone Queiroz perguntou se o Desenrola 1 e o 2 não tinham dado certo, já que agora vem um terceiro, Lula negou. Disse que os programas funcionaram, que o primeiro atendeu quase 15 milhões de pessoas, mas que não deram conta da demanda.

A novidade anunciada é de outro calibre: o governo pretende comprar dívidas, incluindo as dos MEIs, em um leilão no sistema financeiro. Lula falou em um estoque de aproximadamente R$ 300 bilhões e em um deságio estimado entre 92% e 95%.

“A gente então pode comprar essa dívida por um preço de banana para livrar a cara do povo que está devendo e dar um novo começo de vida para eles.”

A ideia é engenhosa no papel. Mas quem garante que os bancos vão vender com esse desconto? E se o deságio for menor, quem cobre a diferença? A pergunta da entrevistadora sobre a fonte de financiamento das medidas, aliás, não era implicância. Era o ponto.

“Não preciso aprender responsabilidade com a Faria Lima”

Lula rebateu a tese de que a dívida pública seria uma “bomba” prestes a estourar no ano que vem. Afirmou que tudo cabe no orçamento, que recebeu um país com déficit de 2,8% e que entrega o orçamento com superávit primário de 0,1%. Repetiu ainda que, nos seus dois primeiros mandatos, fez superávit todos os anos.

“É uma demonstração de que eu não preciso aprender responsabilidade com a Faria Lima.”

Na sequência, voltou a um alvo antigo: o Banco Central independente. Lembrou que Fernando Henrique trocou quatro vezes o comando do BC e que ele próprio manteve Henrique Meirelles por oito anos. A crítica é direta: com a autonomia, quem discute política monetária, segundo Lula, é o sistema financeiro, e não o presidente eleito.

É um discurso que agrada à base. Mas há uma tensão evidente aqui: o mesmo presidente que se diz fiscalmente rigoroso anuncia, na mesma entrevista, compra de dívidas, transporte gratuito e a duplicação de efetivos policiais. A matemática vai fechar?

Escala 6×1, transporte gratuito e a “briguinha” com o Congresso

Questionado se o novo Congresso poderia derrubar o fim da escala 6×1, já que se trata de emenda constitucional, Lula disse duvidar. Para ele, a mudança não é “coisa do Lula” nem “do governo”, mas uma conquista do povo, uma bandeira que remonta aos tempos de sindicato metalúrgico, nos anos 1980.

Daí veio outra promessa: uma PEC para garantir transporte coletivo gratuito nos fins de semana, para que o trabalhador tenha como aproveitar os dois dias de descanso. E a fonte, desta vez, foi nomeada: as emendas parlamentares.

“Vai ter uma briguinha com o Congresso Nacional, mas isso faz parte da democracia.”

“Briguinha” é eufemismo de campanha. Emenda parlamentar é o oxigênio político de deputados e senadores, inclusive das bancadas de estados como o Acre, onde a emenda vira obra, palanque e capital eleitoral. Imaginar que o Congresso vai abrir mão desse poder de bom grado é, no mínimo, otimismo. Lula diz achar que “não vai ter problema”. Brasília costuma discordar.

Segurança pública: o “SUS da segurança” e um ministério condicionado

A maior parte da sabatina girou em torno da segurança pública. Lula insistiu num ponto constitucional: polícias militar e civil são responsabilidade dos estados desde 1988. À União cabem a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e a polícia penal.

A resposta do governo é a PEC da Segurança, que cria um Sistema Único de Segurança Pública, uma espécie de “SUS da segurança”, definindo o papel de União, estados e municípios, com bancos de dados integrados e polícias trabalhando em conjunto.

“Para o trabalhador, para o território, para a comunidade, a proteção. E para os bandidos, prisão.”

Lula prometeu criar o Ministério da Segurança Pública assim que a PEC for aprovada, criar uma força nacional e dobrar os efetivos da PF e da PRF, inclusive para atuar nas fronteiras, sem uso do Exército. Admitiu que só não criou o ministério antes porque foi alertado de que, sem definir primeiro o papel da União, a pasta seria “uma coisa inútil”.

É uma confissão interessante: quase quatro anos de mandato depois, a principal estrutura federal de segurança ainda depende de aprovação legislativa. E o próprio presidente reconhece que se trata de “um orçamento pesado”. Mais um item para a lista de promessas cuja fonte de financiamento ninguém detalhou.

O desafio que vale para os dois lados

Lula também disse estar convencido da vitória no dia 25 de outubro e citou quase 1.700 manifestações em cidades diferentes no último fim de semana, muitas delas, segundo ele, espontâneas. Confiança de candidato é parte do jogo. Urna é outra coisa.

O que fica da entrevista é um desafio que, levado a sério, vale para ambos. Se Lula quer mesmo transparência, a procuração precisa sair do discurso e chegar, com data e protocolo, aos tribunais. Se Flávio não tem nada a temer, o silêncio é a pior das estratégias.

A pergunta que o eleitor deveria fazer é simples: depois do dia 25, alguém vai lembrar dessas procurações? Ou, como o próprio Lula reclamou, a eleição termina e, mais uma vez, nada é apurado?

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