Um relatório obtido pela reportagem mostra que o governo ampliou em 54% uma despesa de publicidade feita no primeiro dia em que a lei proibia esse tipo de gasto. E aponta que veículos locais recebiam dinheiro público e publicavam textos prontos da campanha. Entenda o que está em jogo — e o que isso muda na sua vida.
O governo do Acre gastou R$ 93,18 milhões com publicidade entre 2023 e setembro de 2026. Só no ano da eleição foram R$ 19,98 milhões.
Para dar ideia do tamanho: dividindo o valor total pela população do estado, cada acreano — bebê, criança, adulto ou idoso — pagou cerca de R$ 106 em propaganda nesses quatro anos.
O gasto cresceu ano a ano:

No dia 4 de julho de 2026, a Secretaria de Comunicação do Estado (SECOM) autorizou um gasto de R$ 4,6 milhões em propaganda com o seguinte objetivo: divulgar “os atos e ações do governo do Acre”.
Dois problemas nessa data.
Primeiro, porque 4 de julho foi o primeiro dia do período de três meses em que a lei eleitoral proíbe o governo de fazer publicidade institucional. A ideia da regra é simples: evitar que o Estado use dinheiro público para se promover às vésperas da eleição.
Segundo, porque a reação do governo não foi cancelar o gasto. Foi aumentá-lo. Depois de o partido Democracia Cristã entrar com uma representação no Tribunal de Contas, a despesa subiu de R$ 4,6 milhões para R$ 7,1 milhões. Um acréscimo de 54%.
Esse único gasto passou a representar 35,5% de toda a verba de publicidade do Estado no ano. Somado a outros valores do período de campanha, chega a quase 40% (39,9%).
O dinheiro que virou notícia
O relatório liga o dinheiro à informação que chega até você.

Em 2 de agosto, foi criado um grupo de WhatsApp chamado “Mailza | Imprensa”, com 124 jornalistas e veículos do estado.
Em 10 de agosto, a SECOM liberou R$ 2,29 milhões em pagamentos para a agência que cuida da publicidade do governo — a mesma agência que decide quanto cada veículo local recebe.
Sete dias depois, em 17 de agosto, começou o envio diário de matérias de campanha já prontas. O relatório diz que 42 desses textos foram publicados do mesmo jeito, sem nenhuma alteração, por 11 sites do estado.
Um caso chamou atenção: em 26 de agosto, o grupo enviou uma matéria com uma etiqueta interna escrita “TENDÊNCIA”. Horas depois, um portal publicou o texto igual — com a palavra “TENDÊNCIA” no meio do título. Ou seja, foi copiado sem passar por nenhuma checagem.
O que isso tem a ver com a sua vida
Publicidade sai do mesmo dinheiro que paga saúde, escola e estrada. Não é dinheiro que sobra: é dinheiro que deixa de ir para outro lugar.
O próprio relatório mostra um contraste difícil de ignorar. Nos mesmos meses em que o governo autorizava milhões em propaganda, precisou pedir autorização ao Tribunal Eleitoral para fazer campanhas de saúde — como a de vacinação e a de doação de sangue, liberadas às pressas por liminar. A campanha contra queimadas ficou travada em discussão.
Ou seja: vacinar e alertar sobre a fumaça exigiu carimbo da Justiça. A autopromoção do governo não.
Há um segundo efeito, talvez mais duradouro.
Quando vários veículos publicam o mesmo texto, sem checar, o leitor perde a chance de comparar versões. Quem depende do rádio e do site da cidade para se informar passa a receber só um lado — e vota sem saber o que o governo faz com o dinheiro de todos.
O que pode acontecer agora
Nada está decidido — é uma acusação, e processos assim levam anos. Mas as possíveis consequências são conhecidas:
Multa e punição aos responsáveis pelo gasto proibido no período eleitoral.
Perda do mandato (cassação) e proibição de se candidatar por 8 anos, se ficar provado abuso de poder político e econômico.
Devolução do dinheiro aos cofres públicos, na avaliação do Tribunal de Contas.
Investigação criminal, se for confirmado desvio de finalidade.
Na prática, para o cidadão, tudo isso significa o risco de votar em alguém que pode não conseguir assumir, e de ver dinheiro público usado em algo que a Justiça pode considerar irregular.
