Ícone do site Portal do Rosas

Diploma de Mailza Cameli: um certificado que ninguém pediu pode custar o mandato

O problema nunca foi o papel. O problema é para onde o papel foi.

O certificado de conclusão do curso de Pedagogia que a governadora Mailza Assis Cameli apresentou para registrar sua candidatura virou assunto de rua no Acre. A pergunta chega por mensagem, por telefone e no meio da calçada. A resposta do Portal do Rosas não mudou desde as primeiras apurações: o certificado é falso, e a candidata não terá como provar o contrário.

Há quem minimize. “Mas é só um certificado?” É. E é justamente aí que mora o tamanho do estrago.

Um documento que não precisava estar lá

A questão central não é acadêmica, e sim eleitoral. Segundo a apuração deste portal, Mailza entregou à Justiça Eleitoral um documento de origem irregular, e isso tem peso jurídico muito maior do que qualquer discussão sobre currículo.

“O problema não está no certificado. O problema é que ela apresentou um documento ilegal à Justiça Eleitoral.”

O mais desconcertante é que não havia necessidade. A candidata poderia ter apresentado a carteira de motorista, como já fez em eleições anteriores. Não haveria problema algum. Alguém no entorno dela, talvez um assessor, teve a infeliz ideia de anexar o certificado ao registro. Hoje, esse alguém provavelmente não é a pessoa mais querida do Palácio.

Esperteza demais? Ou excesso de confiança de quem acha que ninguém vai conferir?

O curso relâmpago de Brasília

A cronologia é o ponto que mais incomoda. Mailza chegou a Brasília em 2019. No final daquele mesmo ano, já tinha o certificado em mãos. Foi um curso de Pedagogia concluído em menos de um ano.

O caso não começou agora. O Portal do Rosas vem acompanhando cada desdobramento:

Revelou que a candidata poderia ter o registro de candidatura cassado caso não comprovasse a veracidade do certificado;

Noticiou que a Polícia Federal seria acionada para investigar a autenticidade do documento, e perguntou, com todas as letras, onde fica Valparaíso de Goiás;

Mostrou que a data mudou: Mailza teria se formado, na verdade, em junho deste ano. E o site em questão foi tirado do ar.

Uma data que muda e um site que some. Quem tem um documento legítimo costuma fazer o caminho inverso: abre os arquivos, não fecha as portas.

A estratégia do relógio

Nos bastidores, a leitura é clara: os advogados da governadora buscam um mecanismo para adiar a decisão. É o roteiro clássico de quem não tem defesa de mérito, que passa a apostar no calendário.

E o calendário, de fato, ajuda no curto prazo. A decisão judicial não será rápida. Pode levar dois meses, seis meses ou cerca de um ano. Ironia das ironias: talvez demore mais do que o próprio curso que ela diz ter concluído.

Mas adiar não é absolver. Na avaliação deste portal, o destino é um só: inelegibilidade.

Não confunda alho com bugalho

Muita gente mistura esse processo com a investigação que levou à condenação do ex-governador Gladson de Lima Cameli a 25 anos e 9 meses de prisão. São casos distintos.

Além disso, ao contrário do que se repete por aí, o processo de Cameli não foi tão lento. O que demorou foi o percurso entre a operação, deflagrada em 2021, e o julgamento. A denúncia foi aceita em maio de 2024, e a condenação veio em maio deste ano.

A lição que interessa é outra: um processo criminal demora bem mais do que um processo eleitoral. Quem aposta que o caso do diploma vai se arrastar por anos, como uma ação penal, pode se surpreender.

A chapa inteira na corda bamba

Um leitor pediu esclarecimento, e ele vem direto: em uma eventual cassação, a vice Jéssica Salles não assume. É a chapa toda que perde o mandato.

Se esse cenário se confirmar, o Acre viverá algo inédito: pela primeira vez em sua história, terá uma nova eleição para o governo fora do calendário regular.

O voto que pode virar nulo

Este é o recado mais duro, e alguém precisa dizê-lo antes do domingo: quem votar em Mailza Assis Cameli estará votando, na avaliação deste portal, em uma candidata que fatalmente terá os direitos políticos cassados e perderá o mandato. Esse voto tende a virar voto nulo.

“É a esperteza demais que acaba comendo o dono.”

Fica, então, a pergunta que o Palácio Rio Branco ainda não respondeu: se o certificado é verdadeiro, por que a data mudou, por que o site saiu do ar e por que a defesa trabalha para ganhar tempo em vez de simplesmente apresentar a prova? E mais: quem vai devolver ao eleitor acreano o voto que ele está prestes a depositar em uma candidatura sob suspeita?

Sair da versão mobile