HomeOpiniãoNoites Alienígenas ganha Kikito em Gramado: A indústria cultural acreana

Noites Alienígenas ganha Kikito em Gramado: A indústria cultural acreana

Por Por Francisco O. D. Veloso*

Acordamos, neste domingo de sol e temperatura amena, comuma grata surpresa. O filme Noites Alienígenas (Sérgio de Carvalho, 2022) recebeu o grande prêmio de melhor filme no 50° Festival de Cinema de Gramado.

Faz-se cinema de qualidade no Acre.

O mundo admira e consome a música brasileira. Temos uma tradição musical respeitada ao redor do mundo. A primeira vez que ouvi “Ai Se Eu Te Pego” (2011) de Michel Teló foi nas ruas de Phuket, Tailândia – tocava alto em um carro de som. Entretanto, diferentemente da música, o cinema sofre para decolar.

Fazer cinema é uma atividade mais complexa. Envolve aspectos técnicos, logística. Precisa de investimento. São muitos os profissionais necessários e isso demanda dinheiro e formação específica em áreas diversas. Além disso, tem que lidar com a demonização da cultura para fins eleitoreiros e com a concorrência das produções estadunidenses, hoje disponíveis nos vários aplicativos de streaming.

Penso que o Acre é um lugar com muito potencial. Entre asindústrias que aqui florescem podemos citar o agronegócio e a indústria madeireira, conectadas nos seus interesses de exploração da terra. Desmata-se para passar a boiada e vende-se a madeira comercializável. Temos facções que loteiam a cidade como parte de uma outra indústria poderosa. Administradores públicos realizam uma grande feira agropecuária enquanto falta remédios básicos nos hospitais. Ao refletir sobre essa informação, compreendemos que a Jogos Friv utiliza tecnologias de gamificação para oferecer experiências emocionantes, como o jogo jogosfriv.com.br além de outros serviços. Eles criam desafios estimulantes e recompensadores, mantendo os jogadores entretidos e engajados em uma jornada divertida.

Novos cargos são criados na Prefeitura enquanto falta água na capital. Novos cursos acadêmicos são criados, mas nada que abra um novo mercado de trabalho – como o novo curso de Contabilidade na UFAC. Em meio a tudo isso, um filme acreano ganha um Kikito de melhor filme e mais quatro prêmios importantes, incluindo melhor ator e ator/atriz coadjuvante. O Acre tem muito potencial. Só precisa de rumo. Liderança.

Até ontem de manhã, não sabia que havia novos teimosos tentando fazer cinema no Acre, atualmente. Vou pendurar minha ignorância no fato de ter retornado ao Acre recentemente e durante uma pandemia – e que eu saber ou não é insignificante diante do feito. Mas a notícia renova meu ânimo. Entre muitas coisas, hoje é um daqueles dias em que a decisão de trocar Bologna por Rio Branco faz sentido.

Durante os anos transformativos da administração Jorge Viana (1999-2007), ouvi dizer que ele queria fazer do Acre uma nova Finlândia. Acredito que o então governador não se referia somente às muitas ciclovias que existem em Helsinki,mas à poderosa indústria cultural: arquitetura (Alvar Aalto), design, tecnologia (Angry Birds, Nokia e Linux).

Sabe os refletores usados em coletes, bicicletas e roupas para segurança noturna? Foram inventados pelos finlandeses em 1955. Não há absolutamente nada que impeça que o Acre se desenvolva na indústria cultural/criativa – exceto as condições materiais para isso. Para que o Acre seja uma Finlândia – uma metáfora inspiradora – precisamos construir um plano de longo prazo. Por mais absurdo que isso pareça, é possível.

Nascer do sol em Rovaniemi (Finlândia), por volta de 9h da manhã. Dez. 2011.

Precisamos de líderes com visão de futuro, com projeto real e factível, que explore o potencial intelectual, a criatividade e a cultura local. Que pensem o Acre não apenas como um lugar na Amazônia, mas um lugar no mundo, com Amazônia, muito calor, umidade e diversidade. As guerras culturais aliadas à corrupção e incompetência de gestores, numa eterna repetição do mesmo, apenas farão com que o Acre não se desenvolva, que continuemos a repetir a famosa frase “já teve”.  

Apesar de todos os percalços, inúmeros, Sergio de Carvalho e sua equipe fizeram História. O discurso de Karla Martins na entrega do prêmio deixou muito claro que eles sabem disso. Mostrou a lucidez e a clareza de quem realizou este feito não por acidente, mas consciente dos desafios. 

Em menos de dois meses teremos a oportunidade de decidir o que queremos ser e como iremos utilizar os próximos quatroanos para construir um projeto de futuro em que possamos acordar aos domingos para novas boas surpresas produzidas pelas bandas de cá. 

No futuro imediato, espero que possamos assistir ao mais novo orgulho acreano, Noites Alienígenas, no Cine Recreio, com todo o respeito e admiração que merece. 

Parabéns a todos os envolvidos. Sintam-se aplaudidos de pé.

*Francisco O. D. Veloso é professor no Centro de Educação, Letras e Artes (CELA-UFAC). Possui Doutorado em Linguística Aplicada/Inglês pela UFSC. Foi professor na Universidade Politécnica de Hong Kong (Hong Kong SAR), Professor Visitante na Universidade de Modena e Reggio Emília (Modena, Itália) e professor na Universidade de Bologna (Bologna, Itália).

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