Por Francisco O. D. Veloso*
Tenho sido exposto, ultimamente, a uma avalanche de notícias sobre inteligência artificial. Revistas de prestígio como The Economist e The Atlantic, ou o jornal inglês The Guardian/Observer tem publicado extensas matérias cobrindo IA a partir de diversos ângulos, mas tem um que se sobressai, porque talvez seja a fonte de todos os outros: IA é território inexplorado. O ser humano desenvolveu algo que tem potencial para, de fato, representar um risco à humanidade.
O The Guardian noticiou, ontem, que os líderes e co-fundadores da empresa OpenAI, que desenvolveu o ChatGPT, Greg Blockman e Ilya Sutskever, junto com o chefe-executivo, Sam Altman, pedem que instituições governamentais criem uma agência de controle de inteligência artificial, aos moldes da Agência Internacional de Energia Atômica. Ao mesmo tempo que desenvolveram o produto, eles estavam cientes de seus riscos. Isso é muito importante.
Em janeiro deste ano, os pesquisadores da própria empresa OpenAI, em parceria com o Centro de Segurança e Tecnologias Emergentes da Universidade de Georgetown (Washington, DC, EUA) e Observatório de Internet Stanford já haviam publicado um relatório sobre os riscos de mal-uso de inteligência artificial para campanhas de desinformação e como reduzir os riscos. Em miúdos: chatGPT poderá (e vai) aumentar o risco de fake-news, que chamarei, daqui para a frente, de notícias-mentira, porque é o que são. Mentiras.

Inteligência artificial é um modelo de linguagem. Ao longo das décadas fomos criando, de um lado, uma vasta quantidade de dados online e tudo isso foi sendo armazenado – este texto irá compor esse banco de dados. Seus posts de Instagram e Facebook, também, caro leitor. Linguistas ao redor do mundo, trabalhando na descrição de diferentes línguas, forneceram sistemas linguísticos que alimentaram projetos na área de ciências da computação e linguística computacional. Tá ficando complicado? Pedi ao chatGPT que explicasse o que é um modelo de linguagem para uma pessoa leiga, e eis a resposta:
“Um modelo de linguagem é um tipo de inteligência artificial que foi treinado com uma enorme quantidade de dados textuais. Ele foi projetado para entender e gerar texto semelhante ao humano com base nos padrões e estruturas que aprendeu. Basicamente, é um programa de computador que pode processar e compreender a linguagem humana de forma a gerar respostas coerentes e contextualmente relevantes. Pode ser utilizado para várias tarefas, como responder a perguntas, fornecer informações ou até mesmo gerar conteúdo criativo, como histórias ou poemas. Modelos de linguagem como o ChatGPT aprendem a partir de exemplos e podem gerar texto que se assemelha de perto à fala ou escrita humana.”
Ficou mais simples? Pois é. Esta tecnologia vai transformar nossas vidas, como a invenção da escrita, o barco a vapor, a invenção do avião, a fissão nuclear, a internet e, agora, inteligência artificial.
Eu, particularmente, vejo o chatGPT, como um exemplo de produtos desenvolvidos com inteligência artificial, como algo fantástico. Cresci em Rio Branco, ávido por informação, e na hora de fazer pesquisa para a escola, tinha que ir para a Biblioteca da UFAC manusear pesados volumes de enciclopédias. Quando crio essa imagem mental, agora, poderia até imprimir algo de romântico nisso – mas não tem. A quantidade de informação nunca era suficiente, e eu reconhecia a limitação. A internet não diminuiu o mundo como a roda, a estrada, o barco, o avião. Ela removeu, aos poucos, as limitações que existiam na circulação de informação.
O chatGPT, do pouco uso que tenho feito, mais por curiosidade, mostra-se como uma ótima ferramenta para organizar informações e ideias. Diferente de ferramentas de busca, o chatGPT permite fazer relações entre diferentes tópicos – mas é necessário saber fazer a pergunta adequada para a informação que se pretende obter.
Os problemas que podem emergir a partir do mau uso da inteligência artificial precisam ser preventivamente combatidos através da educação, através do pensamento crítico. Nesse sentido, as disciplinas da grande área de ciências humanas possuem papel central, particularmente a linguística.
Compreender a diferença entre um texto escrito por um humano e outro, escrito por um robô, assim como identificar notícias-mentira, passa pela capacidade de reconhecer, instintivamente, diferenças estruturais e de conteúdo (uma coisa não existe sem a outra) que ocorrem na comunicação e estabelecer diferenças entre eles. Só que é um pouco como perseguir um coelho. Ele é mais rápido do que a gente, se ficarmos parados, essa distância só aumentará até que, em um ponto, o perdemos. A inteligência artificial continuará se aprimorando porque ela aprende a partir de todos os textos que produzimos – inclusive este texto. A IA nunca irá desenvolver, entretanto, um senso ético porque é um computador, ele faz aquilo que lhe é dito para fazer. Ainda.
Assim como profissionais de diversas áreas desenvolveram e aperfeiçoam continuamente os aviões, a linguística (e refiro-me à grande área, seja ela aplicada, aplicável ou teórica) precisa oferecer soluções para o problema que, até certo ponto, ajudamos a criar. A linguística tem contribuído ativamente para o desenvolvimento de inteligência artificial e deve contribuir, agora, para aprendermos a fazer o melhor uso possível desta tecnologia. Nós, profissionais da linguagem, ou seja, linguistas, possuímos ferramentas que podem ajudar no uso de inteligência artificial de maneira positiva, identificando e criando recursos para superar riscos, como a notícia-mentira.
O pensamento crítico exige consciência da existência de estruturas e funções da linguagem, diversas camadas que compõem a produção do discurso, da comunicação entre as pessoas, seja esta comunicação realizada de modo presencial ou digital. Modelos linguísticos foram necessários para desenvolver inteligência artificial, agora precisamos desses mesmos modelos – e outros mais sofisticados – para conviver com ela.
As ciências da linguagem podem ser uma das importantes ferramentas de desenvolvimento sustentável da humanidade diante dos novos desafios do século XXI, além da Agenda 2030.
Dependemos, no entanto, das instituições, e isso inclui todas as esferas governamentais e instituições de ensino superior, principalmente públicas, que possuem um papel social de maior relevância. Neste contexto, a UFAC precisa comparecer e contribuir para o debate, liderando discussões sobre o uso de inteligência artificial que possam ir além de eventos instagramáveis.
Para saber mais sobre a relação entre linguística e inteligência artificial, seguem três sugestões (obtidas no chatGPT):
1. Linguística Computacional: O site Linguística Computacional (https://linguistica.insite.pro.br/) é uma plataforma brasileira dedicada ao estudo da linguística computacional e processamento de linguagem natural. Ele oferece artigos, cursos, materiais e discussões relacionadas ao campo.
2. Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Linguística Computacional (INCT-InWeb): O INCT-InWeb (http://www.inweb.org.br/) é um instituto brasileiro que promove pesquisas e projetos na área de linguística computacional. O site oferece informações sobre eventos, publicações e projetos relacionados ao tema.
3. Sociedade Brasileira de Computação (SBC): A SBC (https://www.sbc.org.br/) é uma importante organização brasileira dedicada à computação. Embora não seja focada exclusivamente em linguística e inteligência artificial, a SBC pode oferecer informações sobre eventos, grupos de pesquisa e publicações relacionadas à área.
Esta não é uma história somente sobre uma enchente. É uma história sobre descaso político. É consequência.
No futuro, os livros de história vão recontar esta história. O que hoje vivemos, experienciamos no cotidiano torna-se uma narrativa. As mensagens trocadas entre as pessoas, as fotos e vídeos distribuídos através de diversas plataformas, tudo isso registra, documenta o evento. Os jornais – escrito, rádio e TV, os blogs, todos contribuem. Então, precisamos ajudar os pesquisadores do futuro, para que possam reconstruir esta tragédia em uma narrativa que capture as suas muitas facetas.
Toda narrativa precisa de um elemento desencadeador. A chuva que, repito, existe desde sempre. E tem os personagens.
Precisamos registrar, para a posteridade, que as enchentes não foram causadas pela chuva. Foram causadas pela completa falta de infraestrutura de Rio Branco.
Desde que me lembro, fala-se do igarapé São Francisco. Sua importância e seu estado de abandono, vítima de uma cidade que tem crescido sem o planejamento e o investimento adequados.
O Acre parece viver uma relação abusiva com seus governantes, com o poder público. Direta, ou indiretamente, somos abusados, aviltados pelo poder público. Isso sempre me pareceu algo distante até que batessem na minha porta. Literalmente.
Quarta-feira, 28 de setembro de 2022. Durante a campanha para o 2o turno das eleições. Muito cedo da manhã a campainha começou a tocar insistentemente. Corri pensando na família, claro. Abro a porta. Dois homens em uniforme preto, pesado. Informações legais começaram a ser recitadas em voz oficial. Era a Operação Algibeira.
A porta do vizinho havia sido arrombada pela Polícia Federal, e estavam intimando testemunhas (somos obrigados por lei). De lá, foram retiradas várias malas, acho que sete – seis vazias e uma contendo dinheiro em espécie.
Segunda-feira. 27 de março de 2023. O igarapé São Francisco baixou um pouco. Ontem, domingo, foi a festa de aniversário do Governador. Ele estava muito feliz. Passeou de helicóptero no sábado – tirou fotos e tudo. Hoje, o Prefeito estava super-envolvido. Fizeram um vídeo dele carregando dois sacos de cesta básica. Outro vídeo circulou em que o prefeito de Rio Branco cerrava um pedaço de pau – não sei o que fazer com essas informações agora. Deixemos para a posteridade e a História interpretá-las.
Importante registrar para a posteridade, entretanto, que a mídia local reclamou que o Governo Federal só liberou 1.4 milhões de reais para ajudar na atual tragédia. Pelo menos, inicialmente. Por que será?
Homens como Barack Obama, Joe Biden, Lula e Xi Jinping, por exemplo, são figuras públicas que compreendem o seu papel na história local e global, seu lugar no mundo.
Não parece ser o caso dos nossos governantes locais. Por enquanto, parecem estar tocando violino enquanto a cidade alaga.
* Francisco O. D. Veloso é professor/pesquisador no Centro de Educação, Letras e Artes (CELA-UFAC). Possui Doutorado em Linguística Aplicada/Inglês pela UFSC. Foi professor na Universidade Politécnica de Hong Kong (Hong Kong SAR), Professor Visitante na Universidade de Modena e Reggio Emília (Modena, Itália) e professor na Universidade de Bologna (Bologna, Itália). IG: fveloso.
