Do jornalismo ao marketing da mentira: a captura da opinião no Acre

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Tácio Júnior*

Até que ponto a comunicação pode deixar de ser jornalismo para se tornar marketing da mentira? Essa é a pergunta que ecoa diante da atual realidade acreana, onde a informação, em vez de iluminar, parece ser usada para obscurecer. O Acre teria chegado a um ponto em que a comunicação, ao invés de servir à democracia, serve ao poder.

Um episódio ocorrido no feriado da última sexta-feira, 5 de setembro, Dia da Amazônia, deixou isso ainda mais evidente. Em um feriado! Muito provavelmente no intuito de não dar oportunidade de defesa e esclarecimento à instituição, um site que seria sustentado quase exclusivamente por recursos públicos nos trouxe o mais novo exemplo quando publicou uma matéria acusando o Tribunal de Contas de pedir ao governo o custeio da participação de servidores em competições esportivas. A versão soava perfeita para minar a credibilidade de um órgão fiscalizador — mas tinha um detalhe incômodo: o pedido existiu, sim, mas não partiu do TCE, e sim da associação privada de servidores. Ao tomar conhecimento, a presidência do Tribunal ordenou a devolução do dinheiro e determinou que cada servidor arcasse com seus custos, exatamente para preservar a autonomia da instituição e a isonomia em seus quadros de funcionários.

O que parecia apenas mais uma fake news, no entanto, se insere em um enredo maior: a transformação da verba de comunicação estatal em arma política. A estratégia, inspirada no que teóricos como Herman e Chomsky já apontaram como “manufatura do consentimento”, transforma jornalistas, apresentadores e influenciadores em peças de um jogo desigual. Não se trata apenas de cumplicidade: a maioria desses profissionais é vítima de uma relação incestuosa que os coloca diante de uma escolha brutal — submeter-se ao sequestro ou passar fome.

Esse modelo perverte a lógica democrática. O jornalismo, que deveria fiscalizar, virou marketing de ataque. As instituições que resistem a se curvar ao governo passam a ser desmoralizadas por narrativas fabricadas e alimentadas pelo dinheiro público. A engrenagem, descrita por Pierre Bourdieu como um campo de forças, no Acre teria sido deformada a ponto de sufocar qualquer respiro crítico.

Não é exagero lembrar que regimes autoritários do século XX, como o nazismo com Goebbels, também instrumentalizaram a comunicação para confundir, dividir e manipular. Guardadas as proporções, o Acre estaria vivendo sua versão local dessa prática: o uso sistemático da propaganda para blindar governantes e atacar quem ousa contrariá-los.

Mentiras publicadas com objetivos tão baixos jamais poderiam servir de justificativa para jogar toda uma categoria profissional no descrédito. É preciso separar as vítimas desse sistema perverso daqueles que, de forma consciente e inescrupulosa, aceitam a tarefa suja de fabricar ataques a instituições. Esses últimos não falam em nome do jornalismo, mas apenas em nome dos interesses de quem paga pela mentira.

Outro questionamento também fica no ar: a exemplo do que a direção do Tribunal fez, quando ordenou que fossem devolvidos os recursos públicos, o mecenas da mentira e homem forte do governo vai pedir de volta o dinheiro que ele paga para atacar instituições que o desagradam? O episódio envolvendo o TCE não foi apenas uma notícia mal apurada. Foi a síntese de uma política de comunicação que degrada a imprensa, enfraquece instituições e sequestra a opinião pública. O jornalismo, quando reduzido a marketing da mentira, deixa de ser imprensa e passa a ser arma — apontada contra a própria democracia.

*Tácio Júnior é jornalista, pela Universidade Federal do Acre, e acadêmico de sistemas para internet, pelo Instituto Federal do Acre