HomeOpiniãoA DESINFORMAÇÃO E O ETERNO MEDO DA IMPLANTAÇÃO DO COMUNISMO

A DESINFORMAÇÃO E O ETERNO MEDO DA IMPLANTAÇÃO DO COMUNISMO

Por Daniel Zen*

Desinformação (fake news e teorias da conspiração) e discurso de ódio são os principais e mais lucrativos produtos disponíveis na prateleira digital da pós-verdade. Junto à pornografia, pedofilia, fofoca, confusão, BBB e tretas em geral, são os conteúdos que mais geram engajamento e portanto, mais lucro para as chamadas big-techs, empresas transnacionais do capitalismo financeiro tecnoglobal que controlam as redes sociais, os motores de busca, os repositórios de conteúdo, os serviços de streaming e demais plataformas de internet que, hoje, rivalizam com os chamados veículos de comunicação de massa, ameaçando o seu monopólio e a sua influência sobre o processo de formação de opinião das pessoas.

Dentre as muitas fake news utilizadas como parte da estratégia política de detratar adversários com ajuda das tecnologias da informação e da comunicação (inteligência artificial, big data, machine learning, impulsionamento pago, monetização), tem uma que é eterna: a de que o principal projeto da chamada esquerda progressista brasileira, liderada pelo PT, é o de implantar o comunismo. É enorme, aqui no Acre, a quantidade de pessoas que se deixou e ainda se deixa levar por essa lenda.

Alguns do PT podem até pretender ou ainda sonhar em implantar o comunismo. Mas, o que a maioria de nós defende – e que todos os nossos governos até aqui procuraram praticar – é, tão somente, um modelo de sociedade que se chama de Estado de Bem Estar Social. Ou, como prefere a turma do Direito, um “paradigma constitucional” chamado de Estado Social de Direito.

Em resumo, o que se procura nesse modelo é fazer com que os frutos da riqueza de um país sejam melhor distribuídos entre todos aqueles que ajudam a produzi-los.

No Estado Social de Direito, além de 1) assegurar a liberdade (de ir e vir, de se expressar, de empreender etc); de 2) zelar pela segurança; e de 3) proteger a propriedade privada, o Estado deve ser aquele que tenta promover, por meio de políticas públicas, a equalização e a redução das desigualdades regionais e sociais que são produzidas e reproduzidas pelo sistema social e econômico em que vivemos (o modo de produção capitalista) e que, por sua vez, é naturalmente excludente.

Nesse modelo que nós defendemos, ninguém vai tomar nada de ninguém: nem as terras dos fazendeiros, nem as fábricas dos industriais ou as lojas dos comerciantes; e muito menos obrigar alguém a dividir o quarto, o banheiro, a sala ou as televisões que possuem em suas casas.

Apenas queremos que, junto com os fazendeiros, com os donos das terras, das fábricas e das lojas também os seus empregados, trabalhadores que ajudam a produzir toda a riqueza que é produzida em uma nação possam usufruir um pouco mais delas, sendo melhor remunerados e tendo uma condição de vida um pouco melhor. É o mesmo que defendemos para os servidores públicos e também para aqueles que, por falta de oportunidades para todos (e não por preguiça ou por falta de estudo ou formação) não conseguem ter o seu próprio emprego e a sua própria renda.

O que a gente defende são mais direitos e justiça social para todos, sobretudo para os que mais precisam a partir de medidas tais como: 1) maiores investimentos públicos, para gerar empregos e crescer a economia; e 2) salário mínimo maior, crédito facilitado, bolsas e demais programas sociais, para distribuir melhor a renda. A combinação de ambas as ideias e uma das formas de promover o crescimento econômico com melhor distribuição de renda, visando atingir inclusão social com redução das desigualdades. Tais medidas e seus resultados, adicionadas de respeito ao meio-ambiente e à dignidade da pessoa humana nos aproximam do verdadeiro desenvolvimento.

Comunismo é uma outra coisa, um tanto mais complexa: é um modo de produção que envolve, dentre outras características, a propriedade e a gestão coletiva dos meios de produção. As tentativas históricas de implantação do comunismo mundo a fora (o chamado socialismo real), de belíssimos ideais, sucumbiram diante de suas falhas e excessos. Porém, assim como a organização dos trabalhadores, foram decisivas para “forçar” o modelo de Estado liberal e de economia capitalista a incorporar, em seus ordenamentos jurídicos, o respeito e a promoção aos direitos sociais e trabalhistas.

De toda forma, quem foi que disse que comunistas não gostam de dinheiro e de riqueza? Gostam tanto que, assim como nós (sociais-democratas e trabalhistas) também querem que sejam melhor distribuídos, que cheguem para mais gente, para os trabalhadores e trabalhadoras e não fiquem concentrados apenas nas mãos dos donos dos meios de produção. Afinal de contas, como disse o Flavio Dino, ser comunista também é isso: defender a comunhão, a partilha, a justiça social.

*Daniel Zen é doutorando em Direito pela UnB, mestre em Direito pela UFSC e professor do Curso de Direito da UFAC. Presidente do Diretório Regional do PT/AC, é contrabaixista da banda de rock Filomedusa, ativista do Circuito Fora do Eixo e colaborador da Mídia Ninja. E-mail: danielzendoacre@gmail.com.

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