Por Chico Araújo
Ninguém acorda pensando: “hoje vou ler o Diário Oficial da União”.
Nem o presidente. A gente acorda pensando em café, em boleto, em se vai chover. Mas tem gente que acorda e o dia já mudou antes mesmo do café. Foi o que aconteceu no dia 10 de setembro de 2026.
Portaria nº 493. Seção 1. Anexo: RESULTADOS FINAIS – PARTICIPANTES APROVADOS.
Linha 4631.
RALINE KRISLEY FIGUEIREDO ELEAMEN.
Em caixa alta, como o DOU grita. Entre a RAKILA e o RAMBRAN. Com um marca-texto rosa por cima, porque o DOU não vem com rosa. O rosa a gente é que coloca. É o nosso jeito de dizer: achei.
Raline pertence àquele tipo que atualiza a página a cada trinta segundos dizendo “não estou nem ansiosa”.
E então aparece.
Art. 1º Tornar pública a relação final dos aprovados no Revalida.
Art. 2º Os resultados já foram divulgados.
Art. 3º Esta portaria entra em vigor na data de sua publicação.
Tradução livre do burocratês: Art. 1º Você conseguiu. Art. 2º Pode chorar. Art. 3º Sua vida é outra a partir de agora.
Quem vê só a linha 4631 imagina que foi simples. Não foi.
Raline veio das terras de Tarauacá.
Tarauacá, no Acre, minha terra também. Cidade que adquiriu dois títulos imbatíveis: a terra da mulher bonita e a terra do abacaxi gigante. Terra que produziu gênios como J. G. de Araújo Jorge, José Potiguara e Leandro Góes Tocantins — que nasceu em Belém, mas com nove meses já estava no Rio Tarauacá, no seringal Foz do Muru. Terra de políticos como Nabor Júnior, José Rui da Silveira Lino e Altevir Leal, natural de Tarauacá, comerciante que exerceu dois mandatos de senador pelo Acre.
Como tantas meninas de lá, Raline cresceu ouvindo que certos sonhos pareciam grandes demais para quem morava longe dos grandes centros. Felizmente, os sonhos não consultam mapas.
Ela resolveu fazer Medicina no exterior. Distância, saudade, dificuldade financeira, adaptação, prova atrás de prova. Tudo fazia parte da matrícula.
Depois, a porteira final: o Revalida. O exame que separa o diploma estrangeiro das três letrinhas mais esperadas: C-R-M. Três letras discretas. Pequenas no tamanho, gigantes no significado.
Ela passou.
E é aqui que a história dela esbarra na minha, e por isso eu precisava contá-la.
Não por vaidade. Mas porque a aprovação da Raline me fez lembrar o gosto que tem ver o próprio nome numa lista oficial depois de muito tempo amarrando capim.
Eu também vim de lá. Mais precisamente de Vila Jordão, hoje município. No início, na Escola Presidente Bernardes, meu GPS era amarrar um capim no outro para não me perder no caminho. Depois, foram onze quilômetros a pé por dia, entre a Vila Extrema e o Corcovado, em Tarauacá, só para poder estudar.
Fui locutor de rádio em Tarauacá, correspondente da Folha do Acre, passei por quase todas as redações do Acre — rádio, jornal, televisão em Rio Branco — e depois para Brasília, nos bastidores do Congresso e do Executivo.
Já maduro, fui fazer Teologia e Direito. E no Direito, entendi a mesma sensação que a Raline sentiu na linha 4631: procurar o nome na lista da Fundação Getulio Vargas (FGV). No caso da OAB, não sai no DOU, sai nos sites da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da FGV, mas o frio na barriga é o mesmo.
Na minha turma do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), tivemos a alegria — sem nenhum mérito pessoal meu, mas da turma toda — de ver nossa faculdade alcançar 73,08% de aprovação, o maior índice entre as particulares do país no XXIV Exame de Ordem, desbancando inclusive a tradicional UnB. Foi bonito de ver. E me lembrou que, no interior, a gente aprende cedo que estudar é a única coisa que ninguém pode tirar da gente.
Conto isso não para falar de mim. Conto para dizer que eu reconheço, na aprovação da Raline, o mesmo valor que um dia me moveu a caminhar onze quilômetros. É o valor de priorizar os estudos.
Cheguei a ser correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, onde Euclides da Cunha também foi repórter. Digo isso com gratidão, não com orgulho. Porque tudo começou amarrando capim.
Tenho um motivo especial para contar isso. Raline é filha de minha sobrinha Milene Figueiredo. A alegria é de família. Mas seria injusto guardá-la só entre nós. Histórias assim precisam ser contadas na rua.
O austríaco Viktor Frankl escreveu que “quem tem um porquê enfrenta quase qualquer como”. A frase cabe inteira na trajetória dela.
Tarauacá continua onde sempre esteve. Os rios seguem seu curso. Mas a cidade fica um pouco maior cada vez que um de seus filhos mostra que a geografia indica apenas de onde se parte, nunca onde se chega.
A menina que Tarauacá criou agora vai vestir o jaleco que o Brasil ganhou.
E quando uma menina do interior conquista um jaleco depois de tantos desafios, não nasce apenas uma médica. Renasce a prova de que o talento não escolhe endereço. E que a perseverança, quase sempre, encontra o seu destino.
(*) Advogado, jornalista e escritor.
