Bora porongar? Há muito tempo venho dizendo que o Estado do Acre está quebrado. As finanças estaduais vão de mal a pior, e a quebradeira chegou a um ponto em que o governo simplesmente não paga. Não paga fornecedor, não paga empresário e, agora, atrasa até o que é obrigação constitucional.
Enquanto isso, o palanque segue animado. Bandeiras nas ruas, militância uniformizada, promessa de continuidade. O que ninguém conta a quem balança a bandeira é que a conta já está na mesa e vence logo depois da eleição.
Nem o ICMS das prefeituras escapou
Aqui está um dado que deveria acender todos os alertas: todos os meses, a Secretaria de Estado de Fazenda tem dificuldade para fazer o repasse do ICMS às prefeituras. Até este 14 de outubro, os municípios ainda não haviam recebido a parcela devida.
Não se trata de favor nem de generosidade do Palácio. É dinheiro dos municípios, que o Estado arrecada e tem a obrigação de repassar. Quando nem isso chega em dia, o diagnóstico é óbvio.
O que é que estão fazendo com o dinheiro?
A pergunta não é retórica. Não há orçamento em secretaria nenhuma. Os empresários que prestam serviço ao Estado e, por consequência, os funcionários deles vivem à espera da boa vontade de um governo que não tem de onde tirar dinheiro.
Empresário que não recebe e ainda paga pedágio
Há um detalhe que torna tudo ainda mais indigesto. Segundo o que apuro nos bastidores, os empresários que não recebem e, quando finalmente recebem, precisam deixar propina pelo caminho, continuam acreditando que as coisas vão melhorar. Pior: levam seus funcionários a votar no mesmo grupo político que quebrou o Acre.
É a síndrome do credor fiel. Apanha, paga pedágio e ainda pede mais quatro anos do mesmo tratamento.
Esse tema não é novo por aqui. Em janeiro, o Portal do Rosas já tratava de propina e da debandada de acreanos que buscam oportunidades em outros estados, contrariando o discurso oficial de que tudo vai muito bem, obrigado.
A militância que acredita em emprego garantido
Agora, o ponto que mais me incomoda. Vejo um monte de gente comissionada e terceirizada indo às ruas balançar bandeira, convencida de que o emprego está garantido caso a governadora seja reeleita.
Tenho dó dessa turma.
Não tem nada garantido.
A lógica é aritmética, não ideológica. Sem dinheiro, o governo vai precisar cortar postos de trabalho nas empresas terceirizadas. E, até por determinação do Tribunal de Contas do Estado (TCE), terá de demitir muita gente que entrou de forma ilegal no serviço público.
Ou seja: quem hoje faz campanha acreditando em estabilidade pode ser justamente quem vai pagar a fatura do ajuste.
Pressão sobre terceirizados já chegou à Justiça
Vale lembrar que a mobilização de terceirizados nesta eleição já foi parar nos tribunais. No dia 2 de outubro, às vésperas do primeiro turno, a 1ª Vara do Trabalho de Rio Branco concedeu liminar contra o Estado do Acre e uma empresa de vigilância por assédio eleitoral a vigilantes da Secretaria de Saúde, em favor de Samir Bestene. A decisão proibiu a coação política e fixou multa de R$ 10 mil em caso de descumprimento.
Quem está na ponta, portanto, vive espremido dos dois lados: pressionado a fazer campanha antes da eleição e ameaçado de perder o posto depois dela.
A conta chega depois do dia 25
Anotem: depois do segundo turno, marcado para o dia 25 de outubro, a tendência é vermos milhares de pessoas na rua. Não para comemorar, mas sem emprego.
Neste momento, o governo está desesperado para não atrasar o salário dos servidores públicos. Está juntando cada moeda, cada centavo. Sinceramente, espero que não atrase, porque quem sofre com isso é o trabalhador, não o gabinete.
E há mais. Avalio que boa parte do dinheiro foi para a campanha do primeiro turno, e o grupo precisa arrecadar mais para o segundo. Tudo isso com a imprensa calada e ninguém investigando a corrupção que permanece.
Não é campanha contra ninguém. É campanha pelo Acre
Antes que a tropa de choque comece a gritar, deixo claro:
Eu não faço campanha para o candidato adversário da governadora. Eu faço uma campanha pelo Acre.
Sou acreano, muito acreano. E é exatamente por isso que não consigo assistir calado a tanta gente seguindo em frente como se não estivesse vendo o que acontece.
Fica a pergunta que o governo não responde: se não há dinheiro nem para repassar o ICMS dos municípios, quem vai pagar a conta depois que as bandeiras forem recolhidas? E por que ninguém, no Palácio, tem coragem de dizer isso antes do voto?
Pobre Acre. Um cheiro do Rosas, e vida que segue.
