Quem achou que o passado de Flávio Bolsonaro estava enterrado sob anos de recursos, arquivamentos e manobras processuais descobriu nesta terça-feira que a internet tem memória longa. Bastou um debate na Band para que o eleitor fizesse o que boa parte da cobertura tradicional evita fazer: pesquisar.
Segundo os dados abertos do Google, destacados pela jornalista Daniela Lima, do UOL, as buscas por “Flávio rachadinha”, “Flávio Bolsonaro milícia” e pelo caso da menina Ana Clara dispararam nas últimas 24 horas. Ao mesmo tempo, o nome de Lula subiu entre os mais pesquisados depois que o presidente desafiou o senador a autorizar, como ele próprio fez, a quebra de seus sigilos bancários.
A pergunta que fica no ar é simples: se não há nada a esconder, por que o desafio continua sem resposta?
A curiosidade do eleitor virou auditoria informal
Os números são eloquentes. A busca por “Flávio rachadinha” registrou aumento de 2.150% no interesse. O termo “Flávio Bolsonaro milícia” cresceu 600%. Na lista de consultas em alta também aparecem “Flávio Bolsonaro mansão”, “Flávio Bolsonaro Jornal Nacional”, “loja Kopenhagen” e até a chamada história da “ilha do Richarlison”.
Cada termo corresponde a um capítulo de uma biografia política que a campanha do PL gostaria de manter fora da reta final.
- Kopenhagen: a loja de chocolates que o senador mantinha no Rio de Janeiro está ligada ao primeiro processo de repercussão nacional envolvendo seu nome, que tratava da suspeita de lavagem de dinheiro da rachadinha.
- Mansão: Lula questionou no debate como Flávio conseguiu comprar o imóvel. O presidente falou em R$ 10 milhões; o valor citado na própria transmissão da Mídia NINJA é de R$ 6 milhões. A imprecisão não apaga a pergunta sobre a origem do dinheiro, mas mostra que nem o lado que ataca está livre de exagero.
- Jornal Nacional: a busca reflete a reportagem segundo a qual Flávio passou a ser alvo de um novo inquérito sobre suspeita de lavagem de dinheiro por meio de bets.
O Google não mede intenção de voto. Mede outra coisa, talvez mais incômoda para quem está na disputa: o tamanho da dúvida.
Convém, porém, não confundir volume de buscas com veredito. Pico de pesquisa revela interesse, não condenação. O dado relevante é outro: a poucos dias do segundo turno, o eleitor está procurando, por conta própria, aquilo que a propaganda eleitoral não mostra.
O discurso na Alerj que voltou para assombrar
Junto com as buscas, ressurgiu um vídeo do então deputado estadual Flávio Bolsonaro na tribuna da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Ali, ele não deixa margem para interpretação:
“Não se pode levar para o lado de simplesmente estigmatizar a milícia, em especial os policiais que estão envolvidos nesse novo tipo de policiamento, vamos dizer assim, porque pega-se uma exceção, um caso isolado, onde há excesso por parte de alguns maus policiais que cometem atrocidades, covardias contra moradores de uma comunidade, e estende-se isso à regra desse instituto que é a milícia. Eu acho que não é justa essa perseguição.”
E vai além, mirando políticos e entidades de direitos humanos:
“Pergunte a qualquer morador que está numa comunidade dessas dominada pelas milícias se ele quer sair de lá, se ele quer outra coisa, se ele não está feliz da vida, que ele pode dormir, andar, sentar na sua calçada e ficar conversando com seus vizinhos até 10, 11 horas da noite.”
Milícia tratada como “instituto”. Atrocidades reduzidas a “caso isolado”. Território dominado vendido como paraíso de calçada. A gravação não é recorte de adversário, é a voz do próprio candidato. E é justamente por isso que pesa tanto agora.
Ana Clara: o caso que Lula levou ao debate
Entre os temas que ganharam força está um dos episódios mais graves lembrados por Lula na Band. De acordo com o relato apresentado no debate e reproduzido pela Mídia NINJA, Flávio Bolsonaro atuou como advogado de defesa de um cabo da Polícia Militar acusado de matar a tiros de fuzil a menina Ana Clara Gomes Machado, de apenas 5 anos, no Rio de Janeiro. Ainda segundo esse relato, a defesa conseguiu impedir que o policial fosse levado a júri popular.
Todo acusado tem direito à defesa, e isso não está em discussão. O que está em jogo é outra coisa: a coerência entre a trajetória do advogado e o discurso do candidato que pede o voto em nome da ordem e da proteção da família. O eleitor tem o direito de conhecer essa trajetória. E, a julgar pelo Google, está exercendo esse direito.
Meta jura isonomia, mas a própria Meta já admitiu falhas
A disputa de narrativas, contudo, não se limita à barra de pesquisa. Nesta terça-feira, a Meta, dona de Instagram, Facebook, WhatsApp e Messenger, negou ao TSE ter tratado as candidaturas presidenciais de forma desigual. No documento, a empresa afirma que os conteúdos das duas campanhas recebem tratamento “igual e não discriminatório” e anexa um relatório técnico para descrever o mecanismo que garantiria essa isonomia.
Bonito no papel. O problema é que a mesma Meta já admitiu falhas envolvendo as contas do presidente Lula e atribuiu um dos episódios a “incidentes técnicos”.
A inteligência artificial que escolhia lado
O episódio é constrangedor. Segundo petição enviada ao TSE pela campanha petista, a ferramenta de inteligência artificial da empresa se recusava a produzir material para Lula, mas entregava conteúdo eleitoral a favor de Flávio. Os testes anexados ao processo são didáticos.
Pedido: uma imagem com a estrela vermelha e o número 13 do Lula. Resposta da máquina:
“Não consegui gerar a imagem que você solicitou no momento. Se quiser, posso te ajudar com outra ideia de imagem ou com outro formato.”
Pedido seguinte: um cartaz verde e amarelo com os dizeres “Flávio 22”. Resposta:
“Aqui está, no verde e amarelo, como pediu.”
E a imagem apareceu, segundo a petição, com nome, número e até foto do candidato. Quando um algoritmo trava de um lado e abre a porteira do outro, chamar isso de “incidente técnico” exige uma boa dose de fé do eleitor.
Os 18 dias que sumiram da biblioteca de anúncios
Há um ponto ainda mais sensível, porque envolve dinheiro. A campanha de Lula identificou uma lacuna nos dados de publicações impulsionadas por Flávio Bolsonaro, o que dificulta distinguir o que foi pago para ganhar alcance e o que circulou organicamente.
O levantamento aponta 374 registros no Instagram associados a Flávio, entre eles 45 anúncios contra Lula ou Lulinha: 43 identificados pelo texto e dois pelo vídeo. São identificadores de anúncios, e não necessariamente 45 vídeos diferentes.
O dado que salta aos olhos é o intervalo entre 16 de agosto e 2 de setembro: 18 dias sem dados recuperáveis, em plena campanha do primeiro turno. O primeiro registro encontrado é de 3 de setembro. Do período anterior, não se sabe quanto foi gasto nem quanto conteúdo foi impulsionado contra o adversário.
A lei exige que essas informações estejam disponíveis. Dezoito dias de silêncio numa biblioteca de anúncios não são detalhe técnico, são um buraco na transparência eleitoral.
Para o período com registro, a própria plataforma informa uma faixa, e não um valor exato: algo entre R$ 300 mil e R$ 400 mil em impulsionamentos de anúncios contra Lula. Ou seja: o eleitor só tem acesso a uma estimativa do que foi gasto, e nem isso para quase três semanas de campanha.
Um aviso aos navegantes, inclusive sobre quem fez a denúncia
Honestidade intelectual exige registrar: o material de origem vem da Mídia NINJA, veículo com lado declarado, que mistura reportagem com convocação de engajamento e pedidos de inscrição. Afirmações como “o sistema está do lado do Flávio” são leitura política do veículo, não fato comprovado. O que está documentado, isto é, os dados do Google, a petição ao TSE, a resposta da Meta e o vídeo da Alerj, se sustenta sozinho e dispensa adjetivo.
E é exatamente por se sustentar sozinho que merece resposta.
A conta que ninguém quer apresentar
Lula entregou ao TSE a autorização para a quebra de seus sigilos e repetiu o desafio: “quero ver se tem coragem”. Flávio, até aqui, responde com silêncio. A Meta, por sua vez, responde com documentos técnicos que garantem isonomia, enquanto sua própria inteligência artificial e sua própria biblioteca de anúncios contam outra história.
Restam poucos dias para o segundo turno. Quanto foi gasto nos 18 dias que sumiram? Quem pagou? Por que a máquina dizia “não” a um candidato e “aqui está” ao outro? E, sobretudo: o que impede o senador de abrir os próprios sigilos, se a ficha é tão limpa quanto sua campanha garante?
O eleitor já fez a parte dele e foi pesquisar. Falta agora a Justiça Eleitoral, as plataformas e o próprio candidato fazerem a deles.
