Por Francisco O. D. Veloso*
Na próxima quarta-feira, 18/05/2022, teremos eleição para a Reitoria da UFAC. Deve-se lembrar aos leitores que a eleição na UFAC é, na verdade, uma consulta interna. O Conselho Universitário, a partir desta consulta via voto, irá compor a lista de indicados à nomeação.
No passado, esta lista era composta pelos nomes que concorriam à eleição e o mais votado, indicado no documento, seria nomeado. Temos duas situações atípicas. Apenas uma chapa concorrendo ao cargo e um Ministério da Educação pouco comprometido com a lista tríplice.
De qualquer maneira, precisamos discutir, em alguma medida, os problemas que a próxima gestão irá enfrentar.
Na última sexta-feira, foi realizada uma conversa na UFAC TV onde os dois candidatos (e atuais incumbentes) responderam a uma série de perguntas que foram recebidas até a véspera. Os entrevistados tiveram acesso às perguntas, o que deflagra esse acesso é que na penúltima questão, um dos entrevistados fez alusão ao que seria perguntado em seguida. As perguntas foram confortáveis e giraram em torno de assuntos que envolviam, no geral, construção e bolsas. Nenhuma pergunta sobre qualidade de Ensino que, como mostrei anteriormente, precisa de atenção, urgentemente.
São muitas as críticas de que a universidade está parecendo uma escola – e junto-me a este coro. Ações que cerceiam a liberdade acadêmica de escolher os textos, as teorias que se trabalha.
Só chegou informação sobre o evento na sexta-feira de manhã – e não era dito no informe que submissões eram até o dia anterior. Ou seja, as submissões já haviam sido encerradas.
Sem saber sobre o prazo, ambicioso e ansioso, enviei duas perguntas. Uma delas era sobre Ensino, um tópico sempre presente no cotidiano acadêmico. Gostaria então de dividir com os leitores algumas dúvidas que tenho, mais singularmente, sobre o atual currículo proposto para o curso de Licenciatura em Letras/Inglês.
Peço aos caros leitores menos familiarizados com o mundo acadêmico que tenham paciência com os detalhes e as tecnicalidades, mas eles são vitais. Não pretendo fazer ilações, conjecturas, mas oferecer, para a sociedade, uma visão dos problemas que são parte de uma instituição de ensino superior. Mas isso deve ser feito com responsabilidade, contextualizando e oferecendo exemplos concretos daquilo que digo. Como docente que atua também no curso de Letras/Inglês tentei, anteriormente, em reuniões e processos administrativos, discutir sobre alguns dos problemas aqui descritos, mas encontrei resistência, assédio(incluindo gritos, pasmem!) em um ambiente tóxico marcado pela falta de profissionalismo e de maturidade tanto emocional quanto acadêmica.
Uma comissão de reformulação do curso de Letras/Inglês foi instaurada pela Portaria no. 495 de 25 de fevereiro de 2014 e a versão final da nova Proposta Pedagógica Curricular (PPC) data de 2016. Essa proposta estava absolutamente pronta para submissão aos órgãos superiores da instituição.
Entretanto, após a posse de uma nova comissão do NDE/UFAC (Núcleo Docente Estruturante), o PPC 2016 não foi dado continuidade. Até agora não consegui entender a razão, mas uma nova comissão foi instituída na Portaria no. 1.535 de 19 de junho de 2017 e recomeçaram os trabalhos de algo que já estava pronto. Em 2018, estava pronto o novo projeto (o atual PPC 2019).
Este PPC 2019, conforme verificado em um programa de similaridade da City University of Hong Kong, contém 30% do trabalho realizado pela comissão anterior. Os outros 70% são modificações feitas pela nova equipe e possui diversas (ou muitas) deficiências – apurar os problemas é um trabalho árduo para se fazer sozinho, então vou dar alguns bons exemplos para ilustrar o problema e, quiçá, darmos início a uma conversa institucional aprofundada a partir de uma comissão.
Um grupo de professores produziu um relatório (processo UFAC 23107.016398/2018-41) sobre as modificações feitas ao PPC original, onde apontaram diversos problemas.
A resposta dada ao processo concentrou-se no ‘rito processual’. O principal argumento é que nenhum dos signatários possuía uma portaria que os capacitasse dar opinião ou questionar o projeto. Ora, qualquer servidor público pode apontar falhas de conteúdo, independente de ter sido nomeado para tal, por ser um dever de zelar pelo patrimônio público e pela qualidade dos serviços prestados à sociedade. Seria o rito processual mais importante do que corrigir ou pelo menos checar as falhas apontadas para garantir uma educação de qualidade?
Apontarei, a seguir, alguns problemas identificados no PPC 2019, por ser meu dever como servidor público.
A Tabela 1 demonstra como as duas propostas curriculares (o PPC 2016 e PPC 2019) tratam as disciplinas de proficiência em inglês – aquelas que ensinam a língua aos alunos. Incluí, para efeito de comparação, a proposta curricular das duas maiores escolas de idioma de Rio Branco, ambas franquias bem estabelecidas no país.

O sistema de classificação A1/A2, B1/B2, C1/C2 refere-se à rubrica do Common European Framework of Reference for Language(Marco Comum Europeu de Referência para Línguas), também empregado em outros países para avaliar e descrever a qualificação linguística de candidatos à vaga de emprego ou admissão em universidade. A Figura 1 a seguir é um exemplo de seu emprego em universidade da Colombia que disponibiliza excelente documento sobre o assunto (em espanhol).

A título de explicação, o PPC 2019 vigente soma um total de 480 horas de cursos de proficiência, mas, como se observa da tabela,tem como objetivo levar os alunos somente até o Nível B2, intermediário. Os níveis B1+ parecem ser uma variação utilizada no PPC 2019 para deixar os alunos por dois anos consecutivos no mesmo nível, o intermediário. Não há, de fato, progressão. E nenhuma ambição.
Diferentemente, as escolas de Idiomas 1 e 2 propõem, com uma carga horária menor, levar os alunos a alcançar um nível de proficiência avançado, o que é possível – considerando-se, claro, outros fatores envolvidos no processo de aprendizagem, tais como a motivação intrínseca dos alunos. Entretanto, o currículo é planejado para isso.
É interessante pontuar que o PPC 2016, descartado, propunha fazer aquilo que se esperaria do currículo de Letras/Inglês, a saber:preparar os alunos para que, com formação robusta, pudesseminclusive atuar em escolas de idioma. Quanto a esse ponto de atuação destacado, cabe mencionar que fui coordenador de uma destas escolas de idioma e vivi a dificuldade de contratar bons professores de inglês – egressos da UFAC. Geralmente, esses egressos costumavam apresentar dificuldades no exame de proficiência em inglês para admissão.
O PPC 2019, vigente, tem como objetivo ‘descolonizar’ o aluno – conforme descrito no PPC 2019 e declarado em reuniões. No entanto, o objetivo de um curso de licenciatura em Letras Inglês (ou qualquer outra habilitação) é a formação sólida de profissionais da linguagem, e somente com alto nível de proficiência na língua essaformação será possível, uma vez que esses profissionais serão capazes de compreender questões de uso da linguagem.
Some-se a isso a visão que se tem sobre o ao uso da língua inglesa em sala de aula.
O próprio Colegiado do Curso de Letras/Inglês parece ter, em sua maioria, uma visão de que os egressos do curso de Letras Inglês não precisam formar com excelente domínio da língua inglesa econfundem conhecimento geral com generalismo/superficialidade.Não se pode ensinar um conhecimento sobre o qual não se tem excelente domínio.
Em reação à minha intenção de usar mais a língua inglesa durante as minhas aulas, a Diretoria de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino (DIADEN) orientou, em despacho oficial, o seguinte:
“Ademais, o professor desconsiderou a natureza pedagógica da unidade curricular e o perfil do aluno do curso traçado no PPC, e ainda indicou que a mesma será́ trabalhada em língua inglesa, (item 5 do Anexo III) mesmo em se tratando de uma disciplina ofertada a alunos do segundo período de formação no curso.”
Como foi traçado o perfil do aluno? O que exatamente na ‘natureza pedagógica da unidade curricular’ impediria que eu utilizasse a língua inglesa? Em um curso de graduação em língua estrangeira, a língua-alvo deve ser utilizada em todos as ocasiões possíveis. Claro que isso depende, também, da competência do professor.
Oferecer um curso de Letras/Inglês onde a própria instituição, através de seus operadores, pede que não se use o inglês parece-me ser um caso de propaganda enganosa, ao subestimar os alunos e aprovar um projeto com fragilidades conceituais e teóricas.
Tal solicitação da Coordenação de Letras/Inglês para intervenção da diretoria em questão vem de semestre anterior quando ministrei adisciplina na Figura 3 a seguir. Nela, palestras, leituras e atividades foram todas realizadas exclusivamente em inglês – e os alunos demonstraram excelente crescimento acadêmico.
O processo de produção do PPC 2019 vigente resultou emanomalias como, por exemplo, a ausência de disciplinas de redação, conforme se pode observar no quadro abaixo, mas também explicitamente afirmado em reunião do Colegiado de Curso em março de 2020.
As Figuras 2 e 3 a seguir mostram como uma disciplina do PPC 2016 teve sua ementa totalmente alterada e, ao manter o nome, produz mais confusão conceitual. Ao serem questionados em reunião (março 2020), a então vice-coordenadora de Letras/Inglês afirmou que o curso não tinha mais disciplina de redação, o que não faz o menor sentido em um curso que tem a linguagem escrita como um dos seus principais objetos de estudo.

O curso de licenciatura em Letras/Inglês (ou em qualquer outra área) deve formar um profissional da linguagem com sólida formação em estudos linguísticos e literários, que aliados à formação pedagógica na área de Educação poderá desenvolver-se profissionalmente, caso decida pelo magistério.
O PPC 2019 constrói, de modo geral, um curso de Letras/Inglês sem ambição, que priva o corpo discente do que está acontecendo de mais atual nos estudos linguísticos e literários para tentar descolonizá-los. O projeto é, na verdade, o resultado da colonização de uma outra área sobre as Letras.
Atualmente estão abertas inscrições para o Curso de Pós-graduação Lato Sensu em Ensino de Língua Inglesa, que busca preencher lacunas deixadas pelo curso de graduação. Ainda assim, esse curso sofreu sérios revezes para aprovação, tendo sido inclusive inicialmente rejeitado por um relator que alegou ‘falta de zelo’ no processo administrativo.
O curso lato sensu é resultado de ações individuais, de pequenos grupos, não uma demanda institucional. Baixamos a “qualidade’ da formação do discente para depois oferecer uma complementação ao que na verdade já deveria ter sido ensinado? Temos aqui mais tempo e recursos públicos gastos para a mesma formação.
Ficam, portanto, algumas perguntas: por que uma segunda portaria foi emitida para um serviço já comissionado e realizado? Por que a comissão do NDE ignorou o PPC 2016 e o eviscerou? Quem desperdiçou anos de trabalho, financiado com dinheiro público, para no final entregar um produto claramente inferior e que impede o desenvolvimento profissional pleno dos alunos de Letras/Inglês, inclusive o acesso à diversidade teórico-metodológica da área? Por que os órgãos de controle da UFAC ignoraram o processo 23107.016398/2018-41, em que já se alertava para os problemas existentes no PPC 2019?
Parece existir um descompasso entre a administração superior e as unidades acadêmicas, e o slogan #étempodecontinuar é um sintoma disso.
Espero que no próximo quadriênio a chapa única que concorre à eleição nesta quarta-feira, 18/05, ouça os “Não” que virão das urnas, independente da quantidade, e, assim como Emmanuel Macron, compreenda que não é tempo de continuar, mas de um novo governo.
*Francisco O. D. Veloso é professor no Centro de Educação, Letras e Artes (CELA-UFAC). Possui Doutorado em Linguística Aplicada/Inglês pela UFSC. Foi professor na Universidade Politécnica de Hong Kong (Hong Kong SAR), Professor Visitante na Universidade de Modena e Reggio Emília (Modena, Itália) e professor na Universidade de Bologna (Bologna, Itália).
