A estratégia era simples e, no papel, até engenhosa: de um lado, um presidente de 80 anos; do outro, um candidato “tinindo”, cheio de vigor. A campanha de Flávio Bolsonaro queria vender exatamente essa imagem no confronto direto com Luiz Inácio Lula da Silva.
O problema é que o vigor tem uma linha tênue com a agressividade. E, pelo balanço feito pelas duas campanhas à jornalista Dani Lima, do UOL, Flávio parece ter cruzado essa linha sem freio.
A própria analista resume: ele pode ter passado do ponto. E o QG petista já decidiu o que fazer com isso.
O “véu” que caiu, segundo o PT
A pergunta incômoda foi feita à campanha de Lula: o presidente não soou apático? A resposta, apoiada em pesquisas de monitoramento, foi um “não” categórico.
Na leitura petista, quem saiu exposto foi o adversário. O que os levantamentos teriam captado, segundo a campanha, foi um Flávio transmitindo muita agressividade e a percepção, entre os eleitores, de que, no fim, não houve debate, porque o candidato do PL se recusou a debater.
Num jargão mais técnico, os estrategistas de Lula descrevem o episódio como a retirada de um “véu” de suavidade e amenidade que encobria o candidato. Sem ele, teria aparecido o que o PT quer que o eleitor enxergue: um postulante agressivo que fugiu das perguntas, em especial as que tratavam de como votava e de corrupção.
Convém lembrar o contexto. Como o Portal do Rosas noticiou, Flávio havia descartado ir ao debate da Band e recuou na véspera, justamente quando os trackings mostravam Lula encurtando a distância a poucos dias do segundo turno. Quem vai ao ringue pressionado pelas pesquisas costuma entrar com a guarda baixa e o dedo em riste.
A nova trincheira: quem é o corrupto?
A frase da campanha petista é uma declaração de guerra:
“Nós vamos disputar a narrativa sobre quem é corrupto.”
Durante anos, o bolsonarismo tratou o tema como propriedade privada. Agora, o PT quer tomar esse território. E já escolheu o símbolo da ofensiva. Para a campanha, a marca do debate foi o desafio lançado por Lula diretamente ao adversário:
“Abra o seu sigilo, eu abro o meu e vamos ver quem é ladrão.”
É uma jogada de alto risco e de alto retorno. Coloca o adversário diante de uma escolha desconfortável: aceitar e se expor, ou recusar e alimentar a suspeita. Na lógica da campanha petista, a esquiva diante das perguntas sobre corrupção já seria, por si só, munição suficiente.
Do outro lado, o reconhecimento envergonhado
A campanha de Flávio Bolsonaro não comprou a tese da derrota, mas também não saiu exatamente comemorando. Admitiu à jornalista que o debate ficou preso nas próprias bolhas e que houve, talvez, uma falha em falar para fora, ou seja, para quem ainda não decidiu o voto.
Ainda assim, os aliados do senador negam que ele tenha sido prejudicado. E apresentam o que dizem ter captado nos grupos de monitoramento de indecisos:
- Um Lula com postura raivosa;
- Um Lula atrapalhado, sobretudo no momento em que Flávio cita o nome do filho do presidente e Lula reage com um “quê?”, por não ter ouvido direito;
- E, aqui vem a confissão, um Flávio que fugiu demais das perguntas.
O último item é revelador. A própria campanha detectou o problema, e isso deve levar a uma mudança de rota. Em outras palavras: os dois lados concordam, cada um à sua maneira, que o candidato do PL se esquivou. A divergência está apenas no tamanho do estrago.
Provocação não é programa
O episódio do “quê?” mostra onde a campanha bolsonarista enxerga sua melhor chance: explorar a idade de Lula e transformar qualquer hesitação em sinal de fragilidade. É o velho roteiro do vigor contra o cansaço.
Só que a avaliação de Dani Lima toca no ponto que nenhum marqueteiro gosta de ouvir: é preciso apresentar algo além das provocações. Projetar energia não substitui proposta. E agressividade sem conteúdo tende a falar com quem já está convencido, exatamente o efeito-bolha que a própria campanha admitiu.
A pergunta que fica
O desafio foi lançado em rede nacional, diante de milhões de brasileiros: abrir os sigilos e deixar que o público julgue.
Se ambos juram não ter nada a esconder, o que exatamente impede os dois candidatos de abrirem os sigilos amanhã de manhã?
Ou a transparência, mais uma vez, só vale como frase de efeito em debate na televisão?
