PESQUISA: Para maioria, corrupção na política é mais grave do que roubos a trabalhadores

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Além de preocupar mais, a corrupção na política também é, de longe, considerada o problema prioritário a se enfrentar

ICL Notícias 

Para os brasileiros, nenhum problema é percebido com mais gravidade do que a corrupção na política: 99% dos participantes da pesquisa a definiram como grave (sendo que 95% usaram o grau máximo do questionário, “muito grave””) quando defrontados com questões sobre a moralidade no país.

Esse é um dos resultados da pesquisa nacional de opinião pública encomendada pelo ICL e realizada pela Ágora Consultores, que ouviu quase 10 mil pessoas das diferentes classes sociais.

A percepção supera até aquela dedicada a questões prementes na segurança pública e no debate político brasileiro: os crimes do dia a dia. Roubos e furtos contra trabalhadores são vistos como graves por 98% dos consultados (86% usando a expressão “muito grave”), situação seguida de perto pelas taxas de juros abusivas cobradas pelos brancos, apontadas como tendo algum grau de gravidade por 96% dos pesquisados — número idêntico quando o problema apresentado é o preço alto dos alimentos.

O levantamento foi realizado entre 17 e 23 de novembro de 2025 para conhecer o pensamento do brasileiro. As conclusões do trabalho estão sendo publicadas em primeira mão pela Revista Liberta.

Corrupção, roubos, juros, custo de vida: são principalmente as temáticas relacionadas de alguma forma ao dinheiro e à economia aquelas que têm sido vistas como mais graves quando a discussão é sobre moralidade.

Bem à frente, inclusive, de pautas tipicamente consideradas “morais”, que ainda aparecem como graves para a maioria dos brasileiros, mas em proporções cada vez menores: 76% veem com gravidade o racismo estrutural, 71% a “falta de Deus na vida das pessoas”, outros 71% a questão da proteção ambiental e combate ao aquecimento global, e 69% encaram com gravidade o problema do preconceito contra LGBTQIA+.

Mas, em todos os casos, as situações propostas pela pesquisa contam com uma ampla maioria de brasileiros encarando os problemas listados como uma situação que merece ser vista com atenção.

Também em todas as situações, a expressão “muito grave” foi a mais escolhida para se referir às pautas apresentadas: mesmo no caso do preconceito contra LGBTQIA+, a menos citada, 50% dos consultados ainda a posicionaram no degrau máximo de gravidade sugerido (19% consideraram “algo grave” e outros 23% se dividiram em “pouco” ou “nada grave”, além de 7% que não souberam opinar).

Mas o entendimento amplo de que um tema é grave não necessariamente significa que ele seja visto como um dos mais urgentes enfrentados pela sociedade. “Quando temos muitos temas que são quase unânimes, há uma decisão metodológica de perguntar de duas maneiras”, explica o cientista político Diego Villanueva, diretor da Ágora. “O que ocorre é que há coisas que são muito importantes, mas têm baixa prioridade, que não geram o mesmo grau de relevância”, diz.

O questionário então propôs um exercício diferente: diante de alternativas que contavam com a concordância majoritária sobre quão graves são, os consultados foram convidados a selecionar somente as três que consideravam mais graves entre todas as situações propostas pela pesquisa.

Aqui, a corrupção na política se isolou no topo do ranking como a prioridade máxima dos brasileiros: 86% a ranquearam como um dos temas mais urgentes da vida nacional — o segundo tema mais citado, os roubos e furtos contra os trabalhadores, desta vez surgem bem atrás, aparecendo no top 3 de 53% dos pesquisados.

A opção por priorizar os temas de mais urgência revela um cenário bem mais plural de preocupações. O preço alto dos alimentos, outro problema do cotidiano, fica em terceiro lugar, ranqueado entre os mais urgentes por 47% das pessoas. Mas as taxas de juros abusivas cobradas pelos bancos, que chegava a empatar com a carestia da comida na questão aberta, aparece bem mais abaixo: são 35% os que a colocaram em seu top 3 pessoal, agora empatando com um problema que, antes, parecia muito mais abaixo, a “falta de Deus na vida das pessoas”.

Mais atrás aparecem os temas seguintes, em ordem: falta de empregos bem remunerados (28%), proteção ambiental e combate ao aquecimento global (26%), racismo estrutural (21%), preconceito contra LGBTQIA+ (18%) e transporte público ruim (17%).

Um destaque da variação dos números pode ser visto em outro tipo de corrupção, aquela das empresas privadas: na questão aberta, tratava-se de um dos temas vistos com gravidade de forma quase unânime, por 93% dos pesquisados (sendo que 76% a definiram como “muito grave”). Mas, na hora de listar as opções por ordem de prioridade, essa questão sem um vínculo direto aparente com o dia a dia passou para o último lugar, citada entre as mais urgentes por apenas 16% dos consultados.

“A corrupção pública e a privada são igualmente graves? Sim, claro, nos dois casos se está roubando. Mas são igualmente importantes? Em geral, há uma preocupação maior em ser roubado pelo governo, não pelas empresas privadas”, interpreta Villanueva. “Entende-se que a cotidianidade está afetada pela corrupção pública, mas para entender as mesmas consequências da corrupção privada é preciso juntar os pontos, ela ainda é vista como um problema distante.”

O estudo consiste em uma pesquisa de opinião pública cujo universo abrange pessoas com 16 anos ou mais na República Federativa do Brasil, realizada por meio do Painel on-line da Ágora Consultores. Foi adotado um desenho amostral estratificado por Unidade da Federação (UF/Estado), com cotas populacionais conforme dados censitários e aplicação de cotas cruzadas por sexo, faixa etária e zona/área, assegurando consistência e equilíbrio na composição amostral.

A amostra totalizou 9.497 entrevistas efetivas, com nível de confiança de 95% e margem de erro amostral de ±1,0 p.p. para distribuições simétricas. Como etapa adicional de robustez, a base foi ponderada e calibrada por sexo, idade, escolaridade e áreas, e submetida a procedimentos de controle de qualidade e consistência, incluindo validações de respostas, identificação de duplicidades, checagens de coerência interna e análise de tempo de resposta.