Sob as asas do poder: Réu por violência doméstica que virou chefe de gabinete e dita as regras no governo do Acre

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Enquanto as campanhas oficiais do governo do Acre pregam, sob luzes artificiais e discursos ensaiados, a defesa intransigente dos direitos das mulheres, os bastidores do Palácio Rio Branco escondem uma realidade incômoda e violenta. Por trás da maquiagem institucional, o poder estadual abriga, protege e empodera quem deveria estar prestando contas à Justiça.

O desabafo de Melissa Sampaio, uma microempresária de Cruzeiro do Sul que sobrevive da venda de doces e bolos, sacudiu a poeira que a assessoria de comunicação governamental tenta jogar para debaixo do tapete. Ela não é apenas mais uma estatística de violência doméstica; ela é a ex-esposa do atual marido da governadora do Acre, Mailza Assis. E o seu agressor, longe de enfrentar o ostracismo social ou a punição legal, foi premiado com o cargo de Chefe de Gabinete Pessoal da própria governadora.

Durante sete anos, Melissa relata ter vivido um inferno particular, marcado por agressões físicas, psicológicas, morais e patrimoniais. Enquanto ela tenta reconstruir sua vida, enfrentando o trauma e a necessidade de suporte psiquiátrico, seu agressor desfruta do topo da hierarquia pública do Estado. A assimetria dessa disputa é brutal.

“Durante sete anos, eu vivi o casamento com o homem que hoje é marido da governadora do Acre. Nesse período, sofri violência física, psicológica, moral e patrimonial… Minha dor não pode ser diminuída pelo silêncio que tentam me impor.”

O que acontece quando o réu em um processo de violência doméstica se torna o homem de confiança da chefe do Executivo? A resposta é o isolamento da vítima. Melissa denuncia que clientes evitam divulgar seus serviços e amigos temem postar fotos ao seu lado, apavorados com o fantasma da retaliação política. Afinal, no Acre de hoje, contrariar o entorno do poder é um passaporte para a ruína profissional.

Não estamos falando apenas de alegações. Há provas materiais que circulam e perturbam o sono dos articuladores políticos do palácio. Em um vídeo que se tornou público, o atual Chefe de Gabinete da governadora admite as agressões com uma naturalidade assustadora, tentando justificar o injustificável entre pedidos de desculpas e novas ameaças físicas.

Como uma gestão que se diz humanizada e feminina tolera, sob o seu próprio teto, a presença de um homem que, segundo as gravações, utilizou a força física para subjugar uma mulher? A contradição é flagrante. Enquanto a governadora assina decretos e comparece a eventos de gala, seu braço direito — e companheiro — carrega a marca indelével de réu na Lei Maria da Penha.

O buraco, como sempre no cenário político acreano, é muito mais embaixo. O prestígio do Chefe de Gabinete parece blindá-lo não apenas de escândalos pessoais, mas também de investigações sobre a sua conduta na máquina pública. O Senador Alan Rick subiu o tom recentemente, trazendo à tona uma acusação gravíssima de bastidor: o atual marido da governadora estaria ditando as regras no governo e operando um esquema de cobrança de propina de 30% sobre contratos com o Estado.

A denúncia de Alan Rick se soma ao ambiente de terra arrasada que se desenha no Acre. Com o ex-governador Gladson Cameli (o “Dancinha”) encurralado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) na Ação Penal 1076/DF, e a própria vice-governadora Mailza sob a mira da Justiça Eleitoral por incongruências em diplomas, o governo parece ter se transformado em um balcão de negócios e proteção mútua de privilégios.

  • Quem ganha: O agressor nomeado, que mantém o status, o salário de alto escalão, o controle sobre as decisões governamentais e uma blindagem política que intimida testemunhas e isola a vítima.
  • Quem perde: Melissa Sampaio, que precisa lutar diariamente contra o boicote econômico e o silenciamento; as mulheres acreanas, que assistem à desmoralização da Lei Maria da Penha dentro do palácio governamental; e o contribuinte, que financia o salário de um operador acusado de extorsão.

A força do depoimento de Melissa Sampaio reside na sua recusa em aceitar o papel de vítima silenciosa. “Ser forte não significa não carregar marcas. Seguir em frente não significa se silenciar”, pontuou ela, em um recado direto aos que tentam desqualificar sua dor.

Diante de fatos tão estarrecedores, a pergunta que resta não é técnica, mas moral: até quando o governo do Acre usará o aparato público para proteger figuras que respondem por violência doméstica e suspeitas de corrupção sistêmica? Se a própria governadora do Estado não consegue garantir a justiça dentro de sua própria casa e gabinete, que segurança ela pode oferecer às mulheres do Acre?