Viramos, minha gente”: a guerra de narrativas a três dias do duelo Lula x Flávio

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Três dias antes do segundo turno, o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, hoje um dos coordenadores da campanha de reeleição de Lula, publicou um vídeo nas redes com cara de gol aos 45 do segundo tempo. Segundo ele, pela primeira vez os trackings internos do PT colocaram o presidente à frente de Flávio Bolsonaro.

Há um detalhe que o entusiasmo deixou de fora: esses números não podem ser conferidos por ninguém. Trackings são pesquisas internas encomendadas por partidos e campanhas. Não têm registro na Justiça Eleitoral e, por isso, seus resultados não podem ser divulgados oficialmente. O eleitor recebe a comemoração sem acesso à metodologia, à amostra ou à margem de erro.

“Viramos, minha gente. Pela primeira vez os nossos trackings apontam Lula à frente de Flávio nesse segundo turno. É uma alegria enorme ver que essa mobilização gigantesca nas ruas e nas redes sociais, em todo o país, está fazendo essa virada histórica.” — Rafael Fonteles, em vídeo nas redes sociais

No mesmo vídeo, o governador anunciou a intensificação das ações de rua e de redes nas últimas 72 horas e prometeu “uma vitória superior à vitória de 2022”. Para quem ainda não virou nada nas pesquisas registradas, a ambição é considerável.

O que o QG petista diz em voz baixa

A colunista Tatiana Farah, do UOL, ouviu integrantes do QG da campanha, e o retrato dos bastidores é bem mais contido do que o vídeo. Segundo a apuração, o PT roda quatro trackings por dia. Um dos levantamentos desta quinta-feira foi o primeiro a mostrar Lula numericamente na frente.

Não foi a primeira oscilação favorável. Na semana passada, um tracking já havia registrado 50% a 50%. Como todos os outros levantamentos da semana, inclusive os do mesmo dia, mantinham Flávio à frente, a própria campanha tratou o empate como possível distorção momentânea.

Desta vez, a animação é maior, mas a cautela também existe. Internamente, a avaliação é que um resultado isolado não forma tendência. O QG quer ver a melhora se repetir nos levantamentos de sexta-feira e sábado antes de concluir se Lula tem chance real de vencer.

Em público, a campanha fala em “virada histórica”. Nos bastidores, fala em “números incipientes”. As duas frases vêm do mesmo comitê.

A contradição tem explicação, e ela não é estatística. Fonteles é coordenador de campanha e político. Seu papel é inflamar a própria plateia.

Euforia de um lado, freio de mão do outro

Enquanto o governador do Piauí soltava fogos, o deputado André Janones segurava o entusiasmo da própria tropa digital com outra mensagem: “a soberba derruba”. Segundo o relato, ele reconheceu a melhora, mas pediu à militância que não cochile e trabalhe até o último voto.

Não há divergência entre os dois. Há divisão de tarefas. Um oferece fôlego ao mostrar que o trabalho está dando resultado. O outro impede que esse fôlego vire acomodação. É uma estratégia de mobilização, não um boletim estatístico.

Do lado de Flávio, a mesma notícia serve aos dois exércitos

O colunista Alexandre, também do UOL, procurou a campanha de Flávio Bolsonaro. A primeira reação da fonte foi rir. Depois veio a ironia sobre quem estaria delirando: “depois somos nós que tomamos cloroquina”.

Em seguida, porém, veio a parte reveladora. A fonte afirmou que os números internos do PL ainda mostram vantagem para Flávio e disse que a divulgação da suposta virada petista não incomoda. Pelo contrário: ajuda a afastar o clima de “já ganhou” e mantém a militância bolsonarista nas ruas até o último dia.

Quando a mesma informação anima os dois lados, ela deixa de ser notícia e vira munição.

O resultado é palavra contra palavra. Cada campanha tem seus números secretos, e nenhuma delas os mostra a ninguém.

O que dizem as pesquisas que podem ser conferidas

Uma ressalva derruba boa parte da euforia: como qualquer pesquisa, o tracking tem margem de erro. Considerada essa margem, a “virada” do PT significa, na prática, que os candidatos estão muito próximos ou empatados.

Esse quadro aparece também nos institutos com levantamentos registrados, como Quaest e Datafolha. Eles indicam estreitamento da vantagem de Flávio Bolsonaro, mas nenhum aponta virada até agora. A disputa caminha para ser decidida voto a voto. Um novo Datafolha estava previsto para as 19h desta quinta-feira.

O movimento não é novo. Como o Portal do Rosas mostrou em 14 de outubro, a subida de Lula nos trackings e nas pesquisas levou Flávio a recuar e aceitar o debate da Band, que havia descartado na véspera. Quem perde terreno costuma mudar de estratégia.

Globo muda as regras depois do teatro da Band

O último capítulo antes das urnas é o debate da TV Globo, marcado para sexta-feira às 21h20, com mediação de César Tralli. As regras divulgadas pela emissora mostram que o episódio do último domingo deixou marcas.

No debate da Band, Flávio Bolsonaro ficou próximo de Lula enquanto o presidente falava e reagia às declarações do adversário para as câmeras. A campanha petista reclamou, e a Globo respondeu com regras mais rígidas:

Formato: quatro blocos, além das considerações finais.

Movimentação: nos três primeiros blocos, quem tem a palavra pode circular livremente, enquanto o adversário fica no púlpito até chegar sua vez.

1º bloco: seis rodadas com temas ligados às regiões do país e um tema prioritário nacional. Cada candidato tem 3 minutos por rodada, divididos entre pergunta e réplica ou resposta e tréplica.

2º e 3º blocos: as perguntas partem de temas apresentados no telão.

4º bloco: tema livre, com 8 minutos para cada candidato e sem limite de intervenções. Cada um poderá se movimentar apenas pelo seu lado do cenário.

Quando uma emissora precisa determinar em regulamento que um candidato fique parado no púlpito, o debate já perdeu parte da sua seriedade.

O risco que mora no próprio palanque

Na campanha petista, a maior preocupação não é Flávio. É o próprio Lula. Segundo a apuração, o presidente faz o treinamento, mas fala o que quer, quando quer e como quer. Às vezes tira da cartola algo que o favorece. Outras vezes, comete uma bobagem. Nos bastidores, a avaliação é que ele está ainda mais teimoso do que no primeiro mandato.

Antes do debate, Lula fez uma live em que se apresenta como “Marechal” e chama Janones de “general do exército do Lula”. A brincadeira militar diz bastante sobre o espírito do comitê na reta final.

A pauta esperada mistura proposta e ataque. O PT quer reforçar que foi Lula quem desafiou Flávio a abrir as contas, e não o contrário, como tentam inverter os bolsonaristas. O Portal do Rosas já registrou essa ofensiva na sabatina do SBT, quando Lula cobrou do adversário: “abra o seu sigilo”. O comitê também quer explorar os episódios da semana em torno do nome de Flávio, como a exclusão de posts antigos em que ele atacava o Bolsa Família, chamado por ele de “bolsa-farelo”, conforme revelou o portal.

Há ainda uma lição de casa atrasada. Lula foi criticado internamente por não ter falado do fim da escala 6×1 no debate da Band. A expectativa é que o tema volte agora, junto com o Prospera MEI, lançado nesta semana e já promulgado.