O teatro do falso moralismo na política brasileira

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A secularidade do Estado não é apenas um dogma constitucional; é a garantia fundamental de que o sagrado não será apequenado pelas disputas rasteiras do poder humano. Contudo, na cena política contemporânea, assistimos à degradação desse princípio com a transformação de altares e púlpitos evangélicos em palanques eleitorais. Sob o pretexto de defender preceitos religiosos, parlamentares instrumentalizam a fé para disparar ofensas, disseminar preconceitos e construir retóricas vazias de apelo popular.

O episódio recente envolvendo o senador Márcio Bittar exemplifica essa distorção. Ao utilizar o espaço sagrado de uma igreja para tecer comentários de baixo calão e fixar-se em aspectos anatômicos da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), o parlamentar expôs não a defesa do Evangelho, mas a degradação do debate público. Trata-se de uma tática recorrente: desviar a atenção da falta de propostas concretas por meio do ataque ad hominem e da apelação moralista.

A ironia desse espetáculo reside no contraste absoluto entre o discurso e a prática. Enquanto o senador busca hipersexualizar e desqualificar uma adversária política, a trajetória da parlamentar atingida fala por si mesma no campo legislativo.

“Quando a fé é convertida em moeda eleitoral, a religião perde sua dimensão transcendente e a política desce aos seus degraus mais baixos.”

A incômoda presença de Erika Hilton no cenário político nacional não decorre de sua identidade, mas da sua expressiva atuação pública. Sua projeção é respaldada por indicadores objetivos de desempenho e reconhecimento institucional:

  • Reconhecimento Internacional: Eleita pela BBC, em 2022, como uma das cem mulheres mais inspiradoras e influentes do mundo;
  • Aprovação Popular e Especializada: Premiada no Prêmio Congresso em Foco por votos do júri e do público;
  • Liderança Histórica: Primeira mulher trans a assumir a liderança de um bloco partidário na Câmara dos Deputados e alçada à presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher.

Diante de uma atuação parlamentar sólida, resta aos seus detratores o recurso ao preconceito tacanho. A incapacidade de debater ideias faz com que a oposição rasteira busque o ataque pessoal como último refúgio.

O aspecto mais revelador desse fenômeno, contudo, surge quando confrontamos o pregador do “resgate dos valores da família tradicional” com seus atos na esfera privada. Revelações de mensagens trocadas por Bittar com garotas de programa expõem o abismo intransponível entre a austeridade exigida do público e a conduta reservada do indivíduo.

Não se trata de vigiar a vida privada de qualquer cidadão, mas de apontar a hipocrisia sistêmica daqueles que usam a moralidade familiar como clava política para perseguir minorias. O mesmo homem que profana o altar para julgar a vida alheia é aquele que relativiza seus próprios preceitos nas sombras da intimidade.

O verdadeiro cristianismo — aquele fundado no respeito, no amor ao próximo e na compaixão — nada tem a ver com a busca desenfreada por aplausos fáceis em templos convertidos em comitês partidários. O eleitorado brasileiro precisa aprender a distinguir o genuíno líder conservador do demagogo que usa a Bíblia como escudo para suas próprias inconsistências.

Enquanto a política for reduzida a ataques anatômicos e moralismos de fachada, a sociedade continuará refém de parlamentares irrelevantes, cuja única contribuição ao país é o ruído da discórdia e o desrespeito às instituições republicanas.